O Caso para Nova Revelação

Os cristãos deveriam procurar uma nova revelação que vai além da Bíblia? Deus já falou Sua palavra final? Ou uma mensagem divina especial é necessária para nossa situação atual? Essas questões eram raramente feitas por cristãos mais antigos porque eles estavam satisfeitos com a antiga revelação bíblica. Se houvesse quaisquer novas experiências revelatórias da presença e propósito de Deus, elas eram interpretadas dentro do contexto da religião tradicional. Por exemplo, os encontros diretos com o sobrenatural experimentados por Francisco de Assis, Ignácio de Loyola, Blaise Pascal e Bernadette de Lourdes foram incorporados dentro da estrutura ideológica da comunidade cristã estabelecida. Entretanto, em alguns casos, as alegadas revelações foram rejeitadas pela igreja em geral, implicando na formação de novos grupos: isto é, com George Fox, Emanuel Swedenborg, Joseph Smith, Mary Baker Eddy, Helena Blavatsky. 13 Em anos recentes, muitos adquiriram maior entendimento dessas chamadas seitas cismáticas, e as encaram como uma reafirmação necessária dos aspectos negligenciados de nossa fé em Deus. Em geral, deve-se admitir que o Catolicismo se revelou mais aberto a novas revelações do que as igrejas Protestantes, possivelmente por causa da insistência da reforma sobre a autossuficiência da revelação bíblica.

A situação atual é radicalmente diferente. O Cristianismo organizado está estruturado de forma menos rígida, assim, seria difícil suprimir aqueles que reivindicam ter recebido uma nova mensagem de Deus. Por outro lado, um grande número de clérigos e leigos estão buscando evidências persuasivas contemporâneas da presença e poder de Deus. Almas sinceras estão orando por uma mensagem do além, adequada à atual condição humana.

A Bíblia não sustenta que ela seja a revelação final, embora muitos teólogos tenham pensado que ela era. Para entender o que as Escrituras realmente ensinam, os cristãos deveriam primeiramente olhar para o Velho Testamento. Tradicionalmente muitos rabinos judeus consideravam o Torá Mosaico como sendo a revelação completa e duradoura de Deus para o homem. Assim, Jesus despertou a hostilidade de rabinos conservadores e judeus apegados ao Torá por se recusar obedecer os mandamentos Mosaicos e insistir em mudar outros. A comunidade cristã posterior foi ainda mais longe ao suprimir partes maiores da Lei revelada: aquelas relacionadas com os dias sagrados judeus e os regulamentos especiais dietéticos, por exemplo.

Mesmo dentro da tradição judaica não havia um acordo amplo sobre o caráter “de uma vez por todas” do Torá. Primeiro de tudo, os livros dos profetas eram aceitos como parte do cânon hebraico. Cada um dos profetas baseou seu trabalho em um encontro direto com Deus. Geralmente estes profetas proclamavam, “Assim diz o Senhor” como se Deus falasse pessoalmente para e através deles. O que devemos lembrar é que todas estas experiências revelatórias do Velho Testamento ocorreram após a promulgação da Lei Mosaica.

Além disso, se o estudo moderno do Velho Testamento está correto, o Torá não era simplesmente o que Moisés aprendeu de Deus no Monte Sinai. Para esse conteúdo revelatório de mandamentos divinos, muitas adições foram feitas por vários séculos.

O livro de Deuteronômio foi anexado muito mais tarde e atribuído a Moisés, mas provavelmente não foi escrito até o tempo da reforma do Rei Josias. Quanto ao Torá em sua forma atual, provavelmente ele foi compilado durante o exílio Babilônico e feito Judaísmo normativo por Esdras. 14

Há também uma passagem importante no Torá que se relaciona com a crença judaica de continuidade ao invés da revelação concluída. Em Deuteronômio 18:15, Moisés diz: “O Senhor teu Deus te levantará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, como eu; a ele ouvireis.” Para os judeus ortodoxos, é importante que o Torá preveja a vinda de um profeta igual a Moisés. Ou se aceitamos a visão acadêmica que o Deuteronômio foi escrito muito tempo depois da morte de Moisés, deveríamos perceber que o Judaísmo normativo reconhecia que mais tarde profetas receberiam revelações.

A seguir, devemos olhar para o Novo testamento. Até o século IV, o Novo Testamento não tinha recebido sua forma final. O próprio Jesus não deu para seus discípulos uma Nova Aliança escrita para complementar a Velha Aliança. De acordo com estudiosos, nenhum dos nossos livros do Novo Testamento foi escrito por um discípulo original de Jesus. Isto significa que por um período considerável de tempo os cristãos primitivos não tinham nenhuma literatura sagrada apartada das Escrituras hebraicas. 15 Eles pareciam ter utilizado a revelação escrita principalmente para provar que Jesus era o Messias. Quanto à orientação direta de Deus, eles confiavam na oração comunitária e declarações inspiradas de “profetas” cristãos. Sobre o último temos pouca informação.

No primeiro século D.C., alguns rabinos ensinavam que a Torá Mosaica seria substituída no alvorecer da era messiânica. Portanto, o Evangelho de Mateus demonstra que Jesus Cristo veio com uma nova Torá suplantando a antiga. Os ensinamentos de Jesus estão organizados em cinco grandes seções comparáveis aos cinco livros de Moisés. A chave para a interpretação de Mateus sobre Jesus é, “Ouviste o que foi dito aos antigos... mas eu digo...” (5:27). Para esse autor, Jesus era o segundo Moisés. O Sermão da Montanha de Jesus, portanto, foi desenhado para contrastar com a revelação de Moisés no Monte Sinai.

Entretanto, dentro do cânon do Novo Testamento, é claramente ensinado que Jesus não veio com a revelação completa e final. No Quarto Evangelho, Cristo é relatado dizendo: “Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora. Mas, quando vier aquele Espírito de verdade, ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir. Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu, e vo-lo há de anunciar. Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso vos disse que há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar.” (16:12-15).

Estes versículos fornecem um fundamento para a crença na possibilidade da revelação contínua. O Quarto Evangelho afirma fortemente que mais verdades de Deus devem ser esperadas depois do ministério terreno de Jesus. Sendo que os discípulos originais estavam despreparados para receber a revelação total de Deus, os cristãos devem esperar a verdade total ser dada pelo Espírito Santo mais tarde. Além disso, o fato é enfatizado que revelação adicional não rebaixa a posição de Jesus. Ela se originará a partir da mesma fonte que a dele. Em adição, a nova revelação realmente aumentará a glória de Jesus porque ela virá com seu endosso.

Esses versículos Joaninos não significam que não haverá nenhuma diferença entre a mensagem original de Jesus e a nova revelação. O Quarto Evangelho em si mesmo é diferente dos Sinóticos. Seu autor omite ensinamentos importantes de Jesus (o Sermão da Montanha, a Oração do Senhor, ou qualquer coisa sobre o reino de Deus, por exemplo). Ele adiciona muitas novas falas e reformula radicalmente a mensagem de Jesus. O Quarto Evangelho também altera a sequência de eventos na vida de Jesus, omitindo a história da natividade, debates com os fariseus, a Última Ceia e a agonia no jardim do Getsêmane, como também colocando a entrada triunfal no início de seu ministério. Assim, a liberdade com a qual o autor reinterpreta os Evangelhos Sinóticos demonstra como ele entendia a futura obra de revelação do Espírito Santo.

Agora vamos examinar um texto que é frequentemente utilizado para provar que o Novo Testamento representa a revelação final de Deus. O último capítulo em nossa Bíblia contém esta advertência: “"Eu aconselho a todo aquele que ouve as palavras da profecia deste livro: se alguém lhes acrescenta, Deus acrescentará a ele as pragas descritas neste livro” (Apocalipse 22:18). Isto implica que a revelação está concluída e que Deus amaldiçoará quem buscar revelação adicional.

Para entendermos corretamente este versículo, devemos reconhecer que nosso Novo Testamento é uma compilação de vinte e sete livros separados, escritos em momentos diferentes e que circularam como rolos ou folhetos individuais. O Apocalipse é um desses livros separados. De acordo com a maioria dos estudiosos, ele foi escrito por volta de 95 D.C. por um “profeta” cristão desconhecido chamado João. 16 O autor não era o apóstolo João nem o escritor do Quarto Evangelho. Como um visionário, este cristão primitivo não queria que ninguém manipulasse suas profecias sobre o Fim dos tempos. Revisar e atualizar a literatura apocalíptica eram uma prática comum para ambos judeus e cristãos. O livro do Apocalipse passou por dificuldades para ser aceito como escritura, antes do fechamento do cânon no século IV. Entretanto, quando ele foi finalmente aprovado, ele foi colocado como último livro, para que a Escritura cristã começasse com a história da criação e concluísse com a promessa da consumação da história. Vários outros livros do Novo Testamento foram escritos depois do Apocalipse. 17 Assim, os primeiros cristãos não sentiam que o Apocalipse 22:18-19 se referia a qualquer outro, mas a esse livro. Não havia razão para pensar o contrário.

A despeito dos Católicos Romanos que declaravam que “fora da igreja não há salvação” e os Protestantes que reivindicavam que a Bíblia contém a revelação final de Deus, sempre houve cristãos que mantinham a promessa da nova verdade de Deus, como ensinava o Evangelho de João. Deixe-me mencionar três exemplos.

Joaquim de Fiore, o abade de um monastério no sul da Itália durante meados do século XII, acreditava que ele tinha recebido a revelação de Deus para restaurar a humanidade. 18 A história pode ser dividida em três partes. A primeira era sobre a história de Adão até João Batista. Durante esse tempo os homens eram governados por Deus, o Pai em quem eles deviam ter fé inquestionável. O segundo período na história foi guiado pelo Filho de Deus. Este foi um tempo para o Cristianismo ser plantado e florescer. Os homens seriam inspirados pela esperança do reino vindouro de justiça, paz e bem-aventurança celestial. Mas há uma terceira era ainda para chegar. Esta nova era será abençoada pelo Espírito Santo e toda a humanidade será preenchida com amor.

O abade Joaquim acrescentou que o relacionamento do homem com Deus naturalmente varia de acordo com o período no qual ele vive. Durante a era do Pai, os homens se esforçavam para serem servos leais para Deus. Durante a era do Filho, a era Cristã, eles serão capazes de alcançar um nível mais elevado, se tornando filhos de Deus, como Jesus ensinou. Então na consumação da história, os homens serão elevados para a posição mais nobre de todas. Porque suas vidas serão infundidas com o Espírito Santo, os homens se tornarão “amigos de Deus.” Joaquim acreditava em uma revelação progressivamente inspirada que capacitaria os homens a criarem sociedades humanas sucessivamente melhoradas.

Cerca de quinhentos anos depois de Joaquim, um grupo de Congregacionalistas vieram para a América no “Mayflower.” Seu ministro John Robinson, que ficou na Holanda, pregou um sermão de despedida aos Peregrinos. Como um conselho final, o Pastor Robinson disse, “Lembrem-se, não tenham medo de ir além de Lutero ou Calvino, porque Deus sempre tem mais luz para derramar a partir de Sua palavra.” Quando os Peregrinos estabeleceram igrejas na Nova Inglaterra, eles lembraram das palavras de seu ministro. Assim, em seus compromissos com os membros da igreja, os Congregacionalistas juraram obedecer à vontade de Deus, “conhecida ou a ser conhecida.” Por mais de trezentos e cinquenta anos, essa fé em mais Luz tem sido uma parte segura da herança Cristã-Congregacional. 19

Finalmente, a Ortodoxia Oriental também não ignorou completamente a crença Joanina na nova revelação. Na última metade do século XIX, os filósofos religiosos russos do movimento Eslavófilos ensinavam que o Cristianismo passaria através de estágios de desenvolvimento. O Catolicismo Romano representa o Cristianismo de São Pedro, enfatizando a obediência. Mais tarde, o Protestantismo apareceu – o Cristianismo de São Paulo – enfatizando a fé. Com o tempo, uma nova e maior forma de Cristianismo se desenvolverá. Ele virá das igrejas do oriente. São João, “o discípulo amado,” será sua inspiração orientadora. Sua característica distinta será a unidade de Deus e o homem na 20 experiência de amor.

Na opinião dos Eslavófilos, o Catolicismo enfatizava demasiadamente a obediência, fazendo a igreja se tornar opressiva e ditatorial. O Protestantismo reagiu corretamente contra isto, mas foi na direção extremamente oposta. Os Protestantes se tornaram tão individualistas, tão divisionistas. Assim, o novo Cristianismo deve vir do Oriente onde teólogos místicos podem apontar o caminho para uma síntese de ordem e liberdade, lealdade e fé pessoal em comunhão unificada baseada no amor.

Os seguidores de Joaquim, os Peregrinos da Nova Inglaterra e os filósofos ortodoxos russos demonstram que ao menos uma minoria de cristãos sempre estiveram buscando por uma fé da Nova Era superior a qualquer coisa já experimentada. E atualmente ninguém sabe quantos indivíduos e grupos estão esperando por uma nova luz de Deus.


13 Cf. C. S. Braden, These Also Believe (1970); 1 Roszak. Unfinished Animal (1975),

14 G. Fohrer, Introduction to the Old Testament (1968), pp. 190-192.

15 W. G. Kummel, Introduction to the New Testament (1975), pp. 475-503; W. Marxsen, The New Testament as the Church's Book (1972).

16 Cf. N. Perrin, The New Testament, An Introduction (1974), pp. 80-82; R. M. Grant, A Historical Introduction to the New Testament (1972), pp. 235-240.

17 I e II Pedro, Hebreus, I e II Timóteo, Tito, possivelmente II Tessalonicenses, Efésios, o Evangelho e Epístolas de João. A Igreja Copta da Etiópia parece ter aceitado em seu cânon tudo que qualquer cristão, em qualquer momento, considerava como parte da Escritura. Assim, o Novo Testamento Copta tem trinta e cinco livros, muitos colocados depois do Apocalipse.

18 M. Reeves, Joachim of Fiore and the Prophetic Future (1976).

19 Cf. W. S. Hudson, Religion in America (1973), pp. 28-29.

20 Os Eslavófilos incluíam os filósofos Soloviev e Khomiakov e o romancista Dostoievski. Suas ideias foram importantes nos escritos do pensador do século XX, Nicolai Berdyaev (d. 1948)

 

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