Agostinho sobre Pecado Original

Santo Agostinho assumiu as referências de Paulo sobre pecado, as desenvolveu e sistematizou. Assim, ele é frequentemente elogiado ou culpado como o pai do conceito de pecado original. Sua teologia moral foi grandemente influenciada por suas controvérsias com dois grupos rivais, os Pelagianos e os seguidores de Mani. Os seguidores de Pelágio ensinavam que Deus criou o homem bom; e que se caímos, fizemos isso por causa de nossos pecados pessoais. Crianças nascem sem pecado, e como Adão, elas caem deste estado original de inocência por causa de seus atos voluntários de maldade. Portanto, não há nenhum pecado original que corrompeu a natureza humana e nenhum pecado que seja herdado de nossos pais.

Discípulos do profeta Persa Mani defendiam a visão oposta. Eles ensinavam que, porque temos corpos, nossas almas estão aprisionadas em uma realidade material hostil, e nossas vidas são constantemente corrompidas pelos desejos carnais. Esperamos pela redenção da escravidão carnal. Assim, ser salvo significa se abster de todas as relações sexuais, ou ao menos evitar ter filhos. Os melhores homens e mulheres praticam o celibato total.

Os Pelagianos começaram com a doutrina de Deus, o Criador, e minimizaram a necessidade de redenção, Agostinho declarou. Os seguidores de Mani, por outro lado, começaram com a doutrina do Deus salvador e negaram a bondade básica da criação. Como um bispo norte-africano preocupado com o Catolicismo institucional, Agostinho viu como os Pelagianos enfraqueceram o caso do batismo infantil, enquanto os seguidores de Mani negaram o sacramento do matrimônio. Assim, Agostinho tentou elaborar uma teologia que reconhecesse tanto a natureza decaída do homem como a bondade do Criador. Ao fazer isso, ele enfatizou dois aspectos do pecado original: o orgulho do homem e sua concupiscência. Teólogos Protestantes têm enfatizado geralmente o primeiro fator enquanto católicos têm mais consciência do segundo.

Se os dois amores fundamentais do homem – “caritas” e “avareza” – estão constantemente em guerra um com o outro, como entendemos seu relacionamento a partir do ponto de vista de Deus? Como uma pessoa pode conciliar a concupiscência do homem com o sacramento do matrimônio? Este era o problema de Agostinho.

Em 418 d.C. Agostinho escreveu um importante tratado sobre pecado original que ele enviou para um casal que tinha se separado, para o esposo se tornar abade de um mosteiro na Palestina e a esposa se tornar uma freira. Neste livreto, Agostinho afirmava que a graça da regeneração espiritual elimina o débito contraído pelo contágio da geração carnal. 12 Por que Adão e Eva caíram? Não simplesmente porque eles caíram presas da concupiscência, mas porque eles desobedeceram o mandamento de Deus. Uma vez que Adão e Eva desobedeceram Deus, eles perderam o controle de seus corpos. A concupiscência veio a partir do pecado.

Agostinho traçou a concupiscência para ambos “a sutileza do Diabo e o consentimento da vontade do homem”. “O enganador de Eva” injetou na mulher a causa da luxúria.” 13 Isto fez dela uma escrava da concupiscência. Como pecadores, Adão e Eva satisfizeram seus impulsos eróticos indecentes. Deus não se opôs ao matrimônio de Adão e Eva. Suas palavras “Frutificai e multiplicai” demonstram que Ele colocou “uma bênção sobre a fertilidade do matrimônio.” Se Deus não tivesse pretendido que Adão se casasse, Ele teria dado a ele outro homem como companhia ao invés de uma mulher, diz Agostinho. Entretanto, o abraço nupcial do primeiro casal deveria ter sido desacompanhado do desejo pruriente. Eles se sentiram envergonhados e se cobriram porque estavam sujeitos aos desejos da carne. Consequentemente, seus filhos nasceram com o contágio do pecado por causa do desejo indecoroso dos pais.

Em um tratado antigo sobre o casamento (401 d.C.), Agostinho afirmou que na pureza do Paraíso, Adão e Eva cedo ou tarde teriam se casado, em obediência ao mandamento de Deus de serem frutíferos. Entretanto, a união deles teria sido livre de todo prazer sensual. Seus corpos seriam completamente controlados por sua razão, e eles então teriam filhos.

A visão de Agostinho sobre a vida no jardim do Éden antes da Queda afetou seu entendimento da futura perfeição do homem no Paraíso. Em seu estado aperfeiçoado, os homens estariam livres de todos os desejos carnais corruptos que levam ao pecado. Quando o reino de Deus vem à terra, cada incentivo para o pecado terá sido purgado da natureza humana.

Ao mesmo tempo, Agostinho se recusou a negar a validade do matrimônio. É verdade que o matrimônio está manchado com concupiscência. Também é verdade que, por causa dos aspectos pecaminosos do ato sexual, todos os filhos são concebidos no pecado e herdam a culpa de Adão e Eva. Entretanto, matrimônio não é mal. O filho produzido através do ato sexual representa uma obra criativa de Deus. O bem do casamento não foi tirado pela má presença da luxúria.

Agostinho merece elogio por reconhecer o fator sexual na Queda de Adão como também sua consciência que concupiscência é ainda a raiz da atual situação de pecado do homem. Entretanto, como muitos daqueles que interpretavam, a queda de forma sexual, Agostinho concluiu que para ser salvo, o homem deve superar sua sexualidade. Portanto, ele diz que está implícito que o sexo per se é pecado. Neste mesmo ponto a doutrina de Agostinho sobre pecado original tem sido atacada por muitos cristãos. Talvez ele ainda estivesse muito influenciado pelo treinamento dos Manis. À luz do Princípio Divino faltou para ele um importante aspecto do plano de Deus. Ele ignorava a intenção original divina de utilizar Adão e Eva como os pais de uma ampla família mundial baseada no amor por Deus e pelos outros.


12 On Original Sin, 37.

13 1bid., 45.

 

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