Diversas Interpretações de Pecado

Para entendermos a doutrina cristã de pecado é importante olharmos para seu desenvolvimento histórico. Três definições clássicas de pecado foram produzidas na tradição judaico-cristã. Primeiro, pecado era interpretado como uma violação consciente das leis reveladas de Deus. Os homens pecam quando desobedecem aos mandamentos de Deus dados para Moisés, ou a nova Lei proclamada por Jesus. Segundo, o pecado tem sido explicado por Paulo e Agostinho como a natureza decaída comum do homem. Pecamos porque somos filhos concupiscentes de Adão e Eva rebeldes. Terceiro, durante a Reforma, pecado foi definido como um portão de infidelidade na medida em que carecemos de confiança em Deus.

As diferenças fundamentais entre estas três doutrinas de pecado podem ser claramente vistas quando olhamos para elas em termos de seus opostos. Se pecado é desobediência às leis divinas, seu oposto é justiça. Se pecado se refere à natureza decaída do homem, isto é contrastado com a natureza original do homem e sua natureza redimida. Ou se pecado significa infidelidade, então seu inverso é fé em Deus e lealdade a Ele.

Começando com a Renascença, estas doutrinas clássicas cristãs da natureza pecaminosa do homem têm sido desafiadas. A Renascença afirmava a dignidade, o poder moral e a beleza natural do homem. Esta visão otimista da natureza humana foi aprofundada e popularizada durante o Iluminismo. A Era da Razão do século XVIII acreditava na bondade natural do homem, o poder soberano da razão humana e a capacidade para criar uma ordem social moral na base de princípios científicos.

Portanto, o Iluminismo minou o entendimento cristão tradicional da pecaminosidade do homem:

1) O homem não é uma criatura decaída, mas um ser racional e moral que pode melhorar a si mesmo e sua sociedade.

2) Deus produziu o universo de acordo com Sua sabedoria. Como Suas leis naturais governam o movimento dos planetas, Suas leis morais são suficientes.

3) Não há nenhum valor no ensinamento da igreja sobre pecado original, depravação total e natureza decaída porque estas noções estão baseadas em antigas lendas hebraicas de Adão e Eva.

4) Além disso, acreditar no mal inato do homem e na corrupção herdada contradiz nosso senso moral. Se somos totalmente depravados, não podemos ser responsabilizados por nossas ações. Se somos pecadores por natureza, nossos pecados específicos são simplesmente resultados inevitáveis de nossa condição decaída.

Biólogos e arqueólogos não encontraram evidência que os seres humanos originais viveram em um estado de inocência e felicidade paradisíaca a partir do qual eles caíram. Para muitos homens modernos, as doutrinas de pecado original, culpa herdada e depravação total são impossíveis de acreditar porque parecem irracionais e imorais:

1) Se somos passíveis de punição pela culpa herdada, Deus é injusto. Somos somente responsáveis por nossos próprios atos. Não podemos ser culpados pelos erros de nossos antepassados.

2) Doutrinas tradicionais de pecado conflitam com o senso comum do homem de responsabilidade pessoal.

3) Elas dão uma imagem indevidamente pessimista da natureza humana. Não somos totalmente depravados, porque temos muitos pontos bons como também inclinações pecaminosas.

4) Se Deus nos dá mandamentos morais, Ele também nos dotou com a capacidade para viver de forma correta. O próprio Deus seria injusto ao exigir de nós o que Ele sabe que não podemos cumprir.

Desafiados pelo otimismo da Renascença e o racionalismo do Iluminismo, pensadores cristãos se sentiram compelidos a elaborar alternativas para a doutrina de pecado agostiniana-calvinista. Uma alternativa é baseada na interpretação evolutiva do homem. Por que pecamos? Porque os homens ainda não superaram suas características animais herdadas. Nossas falhas morais são vestígios de nosso passado animal. Estamos apenas gradualmente nos tornando realmente humanos. O Professor E. R. Tennant foi um dos muitos que advogaram esta reinterpretação darwiniana do pecado. 1

Uma segunda visão foi elaborada por sociólogos e reformadores sociais. Pecamos por causa da estrutura e condições pecaminosas da sociedade. Albrecht Ritschl, por exemplo, afirmou que há um bem organizado reino do mal que é oposto aos sonhos do homem do reino ideal de Deus. Para citar uma frase de Reinhold Niebuhr, “somos homens morais em uma sociedade imoral.” Ou como ensinava Walter Rauschenbusch, instituições de todos os tipos – política, econômica, racial, cultural e religiosa – podem fazer os indivíduos pecarem, encorajá-los a continuarem pecando e até mesmo cegá-los sobre o fato que eles são pecadores. Esta visão tem muitos defensores: os Protestantes liberais do Evangelho Social, Socialistas Cristãos, Marxistas Cristãos, teólogos da esperança e teólogos liberacionistas.

Uma terceira alternativa estava baseada na nova ciência da psicanálise. De acordo com Freud, sofremos todos os tipos de desordens pessoais e coletivas porque reprimimos nossas decisões instintivas. Nos tornamos emocionalmente desajustados e socialmente destrutivos quando suprimimos impulsos biológicos naturais ao invés de encontrar formas construtivas para expressá-los. O que é a alma doente do pecado a não ser a personalidade neurótica insalubre do nosso tempo? Portanto, o psiquiatra remove os sentimentos irracionais de culpa, apontando suas raízes subconscientes, dissipando neuroses socialmente condicionadas, e ensinando os homens a aceitarem uma ética social mais permissiva.

Uma quarta visão da condição decaída do homem é proposta pelos filósofos existencialistas, começando com Kierkegaard. Por que pecamos? Por causa da profunda ansiedade do homem. Nossos lapsos morais se originam a partir de um terrível temor e angústia ontológicos.

Deus nos dá liberdade, contudo, Ele nos ordena a obedecê-Lo. Esta demanda nos enche de angústia. Se obedecemos a Deus, tememos perder nossa liberdade. E se recusamos, nos sentimos culpados. Consequentemente, ficamos assustados. Sentimos como se estivéssemos suspensos sobre o vazio.

Cada um é seu próprio Adão. Temos medo de desistir de nossa liberdade, e assim, tentamos desafiar Deus. Em nome da liberdade, tentamos nos colocar no Seu lugar. Ansiosos para permanecermos livres, nos rebelamos contra Deus e caímos inevitavelmente.

Pecamos porque estamos condenados a ser livres. Por desespero e rebeldia, nos afastamos de Deus e uns dos outros. O homem está em guerra consigo mesmo e com todos os demais. Consequentemente, somos vítimas da solidão e do isolamento. Alienado de Deus, o homem se torna tanto sem amor como também perdido. Isto, dizem os existencialistas, é o estado decaído de todo homem.

Este breve relato revela quão confusos os homens contemporâneos estão sobre sua própria condição. Cristãos discordam sobre o significado de pecado, sua origem e extensão. Muitos confessam que pecado tem se tornado um mistério insolúvel. Não temos certeza de como o pecado começou, quão profundamente ele corrompe a natureza humana e como ele pode ser curado.

A teologia da Unificação reivindica lançar luz renovada sobre o estado pecaminoso de todos os homens. Acreditamos ter recebido uma explicação racional da história bíblica de Adão e Eva. O Princípio Divino sugere uma nova visão do pecado primordial e indica a maneira para que os homens possam ser restaurados à sua comunhão original com o Criador. Assim, a teologia da unificação revela a razão para o distanciamento existencial do homem e seu remédio.


1 F. R. Tennant – um teólogo anglicano do início do século XX na Universidade de Cambridge.

 

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