Significado da Família

No século XX, doutrinas Protestantes sobre o homem têm enfatizado o relacionamento e responsabilidade humana. Um indivíduo se torna uma pessoa madura através de suas conexões com os outros. Ninguém pode realmente existir por si mesmo ou para si mesmo. Os homens são criaturas sociais. Eles nascem em uma sociedade, e são moldados por seu grupo. A teologia do processo e a teologia da libertação enfatizam esta dimensão social do homem. Ambas se opõem a uma interpretação puramente individualista da natureza humana. Quem somos e o que fazemos depende do nosso envolvimento na vida e das atividades em grupo.

A neo-ortodoxia enfatiza a natureza responsável do homem. Temos obrigações para com os outros e ainda mais significantemente com Deus. Quando Bonhoeffer estava na prisão esperando a execução por suas atividades antinazistas, ele compôs um poema sobre a doutrina cristã do homem. “Quem eu sou?” ele perguntou. Ele era o alegado criminoso que permaneceu firme a despeito do confinamento? Ele era aquele que “conversava livremente” com seus captores, como seus carcereiros pensavam? Ou ele era uma pessoa inquieta, irritada e cansada que ele pensava ser? Em última análise, nenhuma destas coisas. Mais do que qualquer outra coisa, ele pertencia a Deus. “Quem quer que eu seja, eu sou teu, Ó Deus,” ele confessou. 40 Um cristão reconhece que ele deve lealdade a Deus. Sendo que Deus criou o homem, o homem é moralmente obrigado a servi-Lo.

A teologia de Brunner do encontro divino-humano também era construída sobre o reconhecimento de nossas responsabilidades básicas. 41 Deus nos criou para cumprirmos Sua vontade. Assim, Ele nos desafia a aceitar Sua soberania. Ele nos faz decidir a Seu favor ou contra Ele. Ter fé significa jurar fidelidade a Deus, deixar de lado nosso egoísmo e nos tornarmos obedientes à Sua sagrada vontade. Porque somos humanos, somos chamados a aceitar nossas obrigações com Deus e com nossos semelhantes.

A teologia da Unificação leva em conta o relacionamento e a responsabilidade do homem utilizando a família como um modelo. Para o Princípio Divino a família centrada em Deus representa o melhor exemplo de como Deus opera na história. Deus cria homens e mulheres para buscarem união. A união deles leva à regeneração biológica, à realização pessoal e ao progresso social. Como uma base de quatro posições, para utilizar a expressão da teologia da Unificação, os laços familiares que unem Deus, esposo, esposa e filhos fornecem o padrão fundamental para todas as formas dignas de relacionamentos humanos. Assim, o Princípio Divino demonstra o fundamento centrado na família para a vinda do reino divino. Uma sociedade ideal pode ser edificada uma vez que uma família realmente centrada em Deus venha a existir.

Como a família sintetiza os fatos do relacionamento e responsabilidade humana? Como indivíduos, vivemos e crescemos na matriz de uma família. Nossos pais nos ensinam o que significa ser uma pessoa digna. Crescemos em sabedoria e estatura sob a orientação deles. A partir deles aprendemos como amar e responder ao amor. Portanto, as respostas que fazemos para o nosso ambiente familiar têm um impacto decisivo sobre o amadurecimento pessoal de nossos filhos. Dizemos “tal pai, tal filho” ou “tal mãe, tal filha.” Quando os pais vivem de acordo com o padrão de Deus, seus filhos os respeitarão, obedecerão e seguirão seus exemplos. Deus deu origem à estrutura familiar, tornando-a um instrumento para a realização de Seu amor e autoridade paternais. Mas quase tão importante são as respostas que damos para nossos pais, mães, irmãos, irmãs e filhos. Somente se estes relacionamentos de parentesco são positivos e criativos, é possível manifestar o pleno dar e receber de amor com Deus e nossos semelhantes. 42

A família também é o principal lugar para aprender nossas responsabilidades sociais. Passamos a aceitar nossa tarefa com Deus na maioria dos casos como resultado de nosso respeito aos nossos pais e da obediência aos seus comandos. Também aprendemos como nos relacionar com a sociedade através de nossas experiências no relacionamento com cada membro de nosso círculo familiar. Exceto em casos raros, o senso de responsabilidade natural dos homens se desenvolve e floresce ou é atrofiado por seu ambiente familiar na primeira meia dezena de anos de vida. Por esta razão, a família centrada em Deus fornece a mais importante base de quatro posições para a regeneração pessoal e a reconstrução social. 43

Não obstante, uma base de quatro posições existe no nível individual também. Centrando sua vida em Deus, cada pessoa é capacitada a experimentar dar e receber criativo entre seu corpo e espírito. Ela também tem garantida a capacidade para coordenar e harmonizar sua razão e sua vida emocional. Uma vez que um indivíduo integra seu corpo e seu espírito, sua razão e sua emoção, sua vida se torna produtiva, útil e feliz. Por outro lado, sem a direção e estabilidade fornecida ao devotar suas vidas para Deus, homens e mulheres se tornam vítimas trágicas de frustração, tédio e depressão. Como um dos provérbios do Velho Testamento aponta, “Sem uma visão, as pessoas perecem.” Uma pessoa centrada em Deus é, portanto, com propósito, enérgica, idealista e útil, sendo que ela tem uma visão da presença e objetivo de Deus.

Quando duas pessoas centradas em Deus se unem em matrimônio, elas estabelecem o fundamento para uma família centrada em Deus. Famílias centradas em Deus tornam possível ter uma sociedade centrada em Deus. Quando a influência delas se expande, o caminho é preparado para nações centradas em Deus e um mundo centrado em Deus. Assim, a teologia da Unificação enfatiza a importância do indivíduo e da família como alicerces para a realização do bem do todo. Quando Deus se torna capaz de exercer Sua soberania direta de amor sobre indivíduos e famílias, a obra pioneira é cumprida para Seu domínio direto sobre toda a criação.

Como muitos têm notado, há óbvias semelhanças entre a ética centrada na família da teologia da Unificação e a moralidade Confucionista. Mas permita-me enfatizar sobre o fato que o Reverendo Moon não se propôs conscientemente a criar uma combinação sincretista de Confucionismo e Cristianismo. Na Coreia, os ensinamentos Confucionistas são uma parte normal da cultura milenar tradicional. Possivelmente como resultado deste fato, o Reverendo Moon foi capaz de reconhecer um aspecto da revelação bíblica frequentemente negligenciada no ocidente cristão, por causa da natureza predominantemente individualista do Protestantismo e da centralização na igreja do Catolicismo. Em qualquer caso, a centralidade na família da teologia da Unificação lança nova luz sobre a doutrina judaico-cristã do homem.

Os ensinamentos Confucionistas podem nos ajudar enormemente em nossos esforços para produzir um novo Cristianismo adequado ao nosso momento atual. Uma ética centrada na família evita os extremos tanto do individualismo como do estadismo coletivista. Ao estudarmos cuidadosamente a mensagem do Mestre Kung, podemos ser capazes de corrigir a fragilidade de duas filosofias ocidentais rivais que têm produzido por um lado o libertinismo egocêntrico e, por outro lado, a desumanização implacável.

De acordo com o Confucionismo, uma ética pessoal e social válida deve estar baseada no entendimento do papel principal da família. Na ética Confucionista a natureza do homem envolve cinco Grandes Relacionamentos: aqueles entre regente e seus súditos, pai e filho, esposo e esposa, irmão mais velho e irmão mais jovem, e amigo e amigo. O que todos estes relacionamentos têm em comum? Na mentalidade de Confúcio, para se relacionar com sucesso em qualquer destas diferentes formas é necessário praticar jen. Jen tem sido traduzido de muitas formas, mas uma das melhores definições é “coração de humanidade.” Viver como um ser humano é se elevar acima do comportamento dos animais selvagens. Isto significa tratar todos os homens de forma humana. Jen nos incentiva a vivermos para o bem-estar da sociedade ao invés de estarmos somente interessados na felicidade privada ou satisfação egoísta. Jen cresce a partir da lei fundamental de reciprocidade. Sendo que temos que viver com os outros, deveríamos aprender como tratar a todos de forma benevolente. Vamos citar a regra de ouro de Confúcio: “Não faça aos outros o que você não quer que seja feito para você mesmo.”

O Confucionismo ensina que as lições de respeito, lealdade e compaixão aprendidas na atmosfera familiar são de valor na sociedade como um todo. Elas personalizam e aprofundam os laços que conectam os homens para fazer avançar o bem comum. Assim, piedade filial gera uma ordem social estável, justa e pacífica.

O Confucionismo tem mérito especial atualmente porque utiliza a família como um modelo para a sociedade maior. 44 No ocidente, as pessoas frequentemente falam da “máquina” do governo como se a nação fosse regulada de forma impessoal, quase mecanicamente. Ou elas se referem ao “negócio” do governo, como se a sociedade fosse um assunto meramente comercial, coletando e gastando dinheiro. Não é melhor ver a sociedade como uma família estendida? Este conceito implica que deveríamos tratar todos os homens com a afeição, cuidado e honra com a qual tratamos nossos semelhantes. Olhar a sociedade a partir desta perspectiva, dizem os Confucionistas, preparará o caminho para A Grande Comunidade (ta tung), um estado de harmonia e felicidade em âmbito mundial. Por esta razão, há mérito em reconhecer as similaridades entre a teologia da Unificação e a sabedoria Confucionista.

Entretanto, há duas diferenças fundamentais entre a teologia da Unificação e o Confucionismo. Porque é baseado na herança bíblica, o Princípio Divino é centrado em Deus, ao invés de centrado no homem, como é geralmente o caso no humanismo Confucionista. 45 Ao contrário da maioria das formas de Confucionismo, os Unificacionistas acreditam que o objetivo do homem não é simplesmente a prosperidade familiar, mas a realização da vontade de Deus. Através de todos os nossos relacionamentos com outras pessoas aprendemos sobre o amor de Deus e sua prática, aumentando assim Sua alegria na máxima variedade de formas. No modelo da família vemos como Deus opera para realizar Seu projeto para a criação. Esse mesmo padrão se aplica aos relacionamentos mais amplos do homem no clã, tribo, nação e sociedade global.

Em segundo lugar, a teologia da Unificação difere do Confucionismo ao interpretar o plano de Deus para a humanidade em termos do propósito de Adão e Eva. Eles foram criados para fornecerem a base para a família centrada em Deus. Eles deveriam ser verdadeiros pais para uma humanidade correta. Assim, se o propósito original de Deus para a criação deve ser realizado, é necessário um novo Adão e uma nova Eva para desempenharem o papel central como representantes de Deus.

Naturalmente, o Confucionismo não é somente o sistema de ética por trás do pensamento de Unificação que defende a importância da família. Toda sociedade, descobriram os antropólogos, reconhece que a estabilidade e solidariedade do grupo dependem dos relacionamentos familiares positivos. Moralistas romanos como Sêneca enfatizavam o valor da lealdade de um esposo, a afeição de uma esposa e o respeito dos filhos por seus pais. 46 Copiando os mestres e pregadores Helenistas de seu tempo, São Paulo quase sempre inseria um “código doméstico” de ética em suas cartas para as igrejas nas quais os casais eram admoestados a servirem um ao outro, e era dito para os filhos 47 honrarem seus pais. No Hinduísmo, um dos quatro estágios essenciais do amadurecimento humano é a experiência do matrimônio e a responsabilidade paternal. 48 Neste sentido, o pensamento de Unificação simplesmente reafirma um ideal que todas as culturas consideravam estar baseado na lei natural e 49 na natureza de Deus.

O Judaísmo também enfatiza as virtudes da vida familiar. Como relatam estudiosos rabínicos, o povo judeu sempre esteve profundamente preocupado sobre matrimônios estáveis e produtivos, 50 não apenas para o bem-estar do esposo e da esposa, mas também porque a família é extremamente importante para a sobrevivência do Judaísmo. Por muitos séculos, os rabinos têm enfatizado a vida familiar intimamente ligada.

Em contraste com o Confucionismo, o Judaísmo e outras crenças centradas na família, o Cristianismo frequentemente considera a reconciliação com Deus como sendo essencialmente um assunto individual. Fé é definida como um encontro profundamente pessoal com Deus. Como Whitehead escreveu, “Religião é o que o homem faz quando está sozinho.” Embora esta noção seja muito verdadeira, o Princípio Divino enfatiza que salvação também significa a restauração da família. Kierkegaard compreendeu que a mais trágica morte do homem ocorre no nível espiritual. Aquele que não ama e não pode amar está morto. Esses indivíduos são realmente os mais egoístas e miseráveis. Onde eles podem aprender como amar, exceto na família que é o berçário mais natural? Como um filho, recebemos afeição e cuidado a partir de nossos pais. Este amor é amplamente passivo e receptivo. Quando uma pessoa cresce e entra no matrimônio, ele ou ela entende a importância do amor mútuo. Quando uma pessoa se torna pai, o amor é expresso incondicionalmente sem esperar ser recompensado. Amor paternal é amor sacrifical. Assim, uma família boa, particularmente uma família centrada em Deus, fornece um ambiente ideal para uma pessoa aprender as três formas básicas de amor de uma forma natural. Assim, o Princípio Divino enfatiza a centralidade da família, especificamente, a restauração do amor que cumpriria o propósito de criação de Deus. Esse ensinamento parece ser bastante novo nos dias de hoje.


40 D. Bonhoeffer, Letters and Papers from Prison (1971), pp. 347-348.

41 E. Brunner, Truth as Encounter (1964), pp. 18-30.

42 Por esta razão, teólogos católicos descrevem a família como uma manifestação essencial da “lei natural” e a teologia luterana trata a família como um mandato ou “ordem” de criação de Deus.

43 A teologia da Unificação é, portanto, um meio de evitar o individualismo Protestante e existencialista como também o estatismo totalitário secular.

44 Cf. Julia Ching, Confucianism and Christianity (1977).

45 Cf. Liu Wu-Chi, A Short History of Confucian Philosophy (1955), p. 10.

46 Sêneca (d. 75 AD), um contemporâneo de São Paulo, era o moralista mais na moda de seu tempo e o tutor do Imperador Nero. Cf. M. Hadas, The Stoic Philosophy of Seneca (1958).

47 Cf. Colossenses 3:18-21; Efésios 5:21-6:4.

48 Cf. S. Radhakrishnan, The Hindu View of Life (1975), pp. 59-66.

49 Cf. Declaração de Independência: nossas liberdades vêm da natureza e do Deus da natureza. Esta frase do Iluminismo demonstra que a moral não é meramente costumes sociais. Moralidade é parte da própria natureza.

50 O Talmude Babilônico afirma “Aquele que não tem esposa vive sem alegria, sem bênção e sem bondade.” Cf. Encyclopaedia Judaica (1971), vol. 6, p. 1171.

 

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