Visões Modernas da Queda

Tradicionalmente, a doutrina cristã do homem decaído tem sido conectada com a história do Gênesis de Adão e Eva. Entretanto, a confiabilidade histórica do relato da Queda tem sido cada vez mais questionada. Aqueles que negam a validade da narrativa do Éden fazem isto por duas razões. Por um lado, é difícil conciliar o relato de Adão e Eva com as teorias científicas modernas. Por outro lado, estudiosos bíblicos tendem a lançar dúvidas sobre o relato do Gênesis ao interpretá-lo à luz das antigas lendas babilônicas e canaanitas. 2

Assim, Brunner insiste que a verdade da Queda não deve estar conectada com o “mito” de Adão e Eva. Toda a história de Adão implica uma visão de tempo e espaço que já passou.3 Portanto, os cristãos devem basear sua doutrina da Queda no Novo Testamento ao invés do Velho Testamento. Se elaboramos uma visão cristocêntrica do pecado original, podemos evitar as dificuldades intelectuais e teológicas conectadas com a visão do mundo mítica do Gênesis. Entretanto, se o relato do Gênesis não é baseado em eventos históricos, as questões do Quando e Como da Queda não podem ser respondidas historicamente.4

À luz de todas as dificuldades, alguns teólogos modernos reinterpretam a história do Gênesis. Vamos considerar alguns exemplos.

De acordo com o teólogo de Harvard Gordon Kaufman,5 a história do Gênesis enfatiza que a Queda ocorreu porque Adão e Eva comeram o fruto proibido da árvore do conhecimento do bem e do mal. Para Kaufman, este ato é uma forma simbólica de dizer que o homem se tornou um pecador, uma vez que ele pôde distinguir entre bem e mal. Antes de comer o fruto proibido, o homem vivia em comunicação com Deus. Por que olhamos para Deus? Para saber evitar o mal e viver uma vida boa. Mas uma vez que o homem comeu da árvore, não havia mais qualquer razão ética para Deus. O homem por si mesmo pôde decidir como agir. Assim, ele se sentiu moralmente autônomo. A consciência torna o homem independente ou autoconfiante e, portanto, Deus não é necessário como uma fonte de padrões éticos.

Kaufman também observa que a Queda foi causada não apenas pelo homem, mas pelo relacionamento do homem com a serpente, a qual simboliza o mundo da natureza. Os homens caíram quando começaram a se relacionar com a natureza sem referência a Deus. Viver como um ser autônomo promove grande poder: poder sobre a natureza e poder sobre sua própria vida. Quão livres, quão poderosos os homens se sentiram quando eles cortaram seus laços com Deus! Como Nietzsche coloca, se Deus está morto, podemos nos tornar super-homens. Assim, os homens caíram quando eles divorciaram a natureza de Deus e trataram o seu mundo como uma realidade secular.

A história do Éden descreve um estado idílico. O homem e Deus vivem juntos no tipo mais íntimo de relacionamento pessoal. Havia íntima comunicação face-a-face entre o Criador e Suas criaturas. Adão e Eva estavam nus, mas não se envergonhavam. Isto indica simbolicamente a natureza completamente aberta e desinibida do encontro divino-humano.

Quais são os efeitos da Queda? O homem vive agora de acordo com seus próprios padrões de bem e mal. Manipulamos a natureza para nossa própria vantagem egoísta. Somos guiados por considerações meramente antropocêntricas e utilitárias. Nosso estado decaído nos afasta de Deus e nos torna estranhos uns com os outros. Como Adão e Eva, nos escondemos quando ouvimos Deus chamando e ficamos com medo de enfrentá-Lo face-a-face. Ficamos envergonhados do que somos e tentamos cobrir nossa nudez. Cortados de Deus e de um relacionamento natural com os outros humanos, os homens se tornaram atormentados pela ansiedade. Nos sentimos inseguros, incertos e inquietos. Nos tornamos sobrecarregados com culpa e aterrorizados pelo pensamento de morrer.

A Queda do homem afetou toda a história subsequente, conclui Kaufman. Cada geração está aprisionada pelas atitudes e experiências de seus predecessores. Consequentemente, nos tornamos sobrecarregados com medos, frustrações e loucuras do passado. O pecado veio ao mundo através de um só homem e a morte através do pecado, por isso a morte se espalhou para todos os homens (Rom. 5:12).

Alguns discípulos de Kierkegaard oferecem uma explicação muito diferente da Queda.6 De acordo com esta visão, não foi uma ética autônoma, mas a confiança no conhecimento especulativo que causou o banimento de Adão e Eva do Jardim do Éden. O que a serpente prometeu é que razão pode nos fazer iguais a Deus. Uma vez que Adão e Eva aceitaram essa noção, eles descobriram que não poderiam mais viver no Paraíso. O homem acreditou na mentira da serpente que ao comer o fruto proibido, “Seus olhos deveriam ser abertos e vocês deveriam ser como deuses, conhecendo.”

Quão condenados estamos ao aceitarmos as reivindicações da razão? Primeiro, quando olhamos para a criação com os olhos bem, abertos, descobrimos que nem tudo é bom como reivindica o Gênesis. A razão nega a crença que tudo que Deus criou era muito bom. A razão explica que tudo que existe tem um início e um fim. Existir significa ser imperfeito, sujeito a declinar e condenado a morrer.

Em segundo lugar, a razão leva ao mal e ao pecado porque ela afirma que todo indivíduo enfrenta determinado destino. A história demonstra que todas as pessoas são finitas, e que cedo ou tarde serão esmagadas tão miseravelmente como se elas fossem objetos inanimados. Assim, a razão nos diz que devemos aceitar nosso destino. Ser sábio significa inclinar diante do inevitável.

Terceiro, o que a razão pode descobrir? Somente ideias, abstrações sem vida. A razão ignora homens de carne e sangue em favor de conceitos como verdade, bondade e beleza. Razão é fria e impessoal; mas vida é específica, calorosa e individual. Esse é o motivo pelo qual Kierkegaard era tão hostil à filosofia do espírito puro de Hegel. O idealismo Hegeliano drenava todo o sangue e paixão dos homens. Razão é o pecado original porque ela disseca a vida através da análise lógica, transformando indivíduos apaixonados em categorias lógicas.

Quarto, razão destrói os esforços éticos dos homens. O racionalismo transforma moralidade em leis eternas. Os moralistas racionais insistem: “Você deve fazer isto, você não pode fazer aquilo.” Ética é definida em termos de obrigações. O homem não tem mais nenhuma escolha. Ele é coagido a obedecer.

Para concluir, os existencialistas identificam a Queda do homem com sua confiança na razão porque a razão é totalmente antirreligiosa. Razão enfatiza os pensamentos do homem enquanto a religião enfatiza seus sentimentos. Razão ignora o individual em favor do universal, mas a fé está preocupada com o valor único de cada homem. Razão exalta a necessidade, a fé afirma a liberdade. Ter fé é afirmar que com Deus nada é impossível. Entretanto, o homem é decaído porque ele foi seduzido e continua a ser seduzido pelo conhecimento teórico.

Uma terceira interpretação da Queda tem suas raízes no Gnosticismo Cristão, mas foi revivido por Nicolai Berdyaev e Paul Tillich. De acordo com Berdyaev,7 a história do jardim do Éden simboliza o estado pré-histórico do homem. O Éden se refere à felicidade inconsciente, quase vegetativa que o homem experimenta antes de sua consciência sobre a diferença entre bem e mal.

Uma vez vivemos em uma era dourada de inocência e harmonia. Estávamos então em união com a natureza e em comunicação com Deus. O exílio de Adão e Eva do Éden simboliza o fato que o homem agora se sente colocado distante de Deus e o cosmos parece ter se afastado do homem. O Paraíso era felicidade, enquanto nosso estado atual é de divisão, ansiedade e conflito.

Quando o homem alcançou a consciência, ele se tornou separado do verdadeiro fundamento de sua existência. Embora a Queda foi uma tragédia, ela também foi necessária e benéfica. O homem rejeitou a plenitude e felicidade do Éden a fim de explorar seu destino até suas mais íntimas profundezas. Ele caiu da harmonia da felicidade e escolheu a vida trágica da existência terrestre a fim de realizar suas potencialidades.

Comer o fruto da árvore do conhecimento exilou o homem do Paraíso. Mas conhecimento é bom e capacita os homens a descobrirem o significado da vida. O exílio do Éden nos capacita a alcançarmos um estágio mais elevado de consciência e atingirmos um estado mais elevado de existência. O “mito” da Queda não degrada o homem, mas ao invés o exalta para estaturas maravilhosas. Sendo que temos liberdade para cair, também temos a capacidade para levantar de novo. A possibilidade do mal é uma condição necessária para alcançar o bem. Assim, o mito da Queda é um mito da grandeza potencial do homem.

Sendo que somos livres, somos chamados para nos tornamos criadores de novos valores. Somos livres naquilo que somos capazes de cooperar voluntariamente com Deus, para produzirmos novos valores. Estamos destinados a ser criadores criados. Nossa atividade criativa deveria nos trazer para uma experiência dinâmica de eternidade.

O homem pensa sobre o paraíso que havia e o paraíso que virá. Assim, a Bíblia combina o mito da era dourada no passado com a esperança messiânica de uma era milenar no futuro. Seguindo o caminho de tragédia e heroísmo, o homem viaja desde o Éden original, no qual liberdade é desconhecida, para um paraíso no qual há o conhecimento da liberdade. O Paraíso será alcançado através da criatividade humana. Assim, a revelação cristã é primeiro e ainda mais uma mensagem do reino de Deus, o fim dos tempos, um novo céu e uma nova terra.

Tillich entende a Queda como uma descrição mitológica da transição do ser essencial para o existencial. Todos os homens estão cientes do afastamento de sua verdadeira natureza. Contudo, a Queda não se refere a um evento ocorrido uma vez em algum momento. O que a Queda simboliza é a situação humana universal. Todos os homens são decaídos porque todos estão distanciados de si mesmos, dos outros e de Deus. A situação humana envolve três formas de autodestruição: incredulidade, orgulho e concupiscência. Por causa disto, nos sentimos sobrecarregados com culpa pessoal e 8 experimentamos as trágicas consequências da existência.


2 A. S. Rappoport and R. Patai, Myth and Legend of Ancient Israel (1966), Vol. 1.

3 E. Brunner, Dogmatics (1952), v. 11, p. 89

4 Ibid., p. 100.

5 Gordon D. Kaufman, Systematic Theology: A Historicist Perspective (1968), pp. 352-364.

6 See Lev Shestov, Kierkegaard and Existential Philosopkv (1969), pp. 1-28, 127-138, 247-249.

7 N. Berdyaev, The Destiny of Man (1960), pp. 23-44.

8 Tillich, Systematic Theology (1957), vol. 11, pp. 29-59.