Jesus e o Reino de Deus

A pregação de Jesus era dominada por sua fé na vinda do reino de Deus. Ele era principalmente um profeta escatológico, proclamando que o reino de Deus estava chegando (Marcos 1: 14, 15). Quase todos os estudiosos modernos do Novo Testamento reconhecem este fato. 34 Como Schweitzer declarou, a busca pelo Jesus histórico deve acabar com uma escatologia consistente ou ceticismo completo. Se Jesus de Nazaré não era um arauto da iminente era messiânica, então não sabemos nada sobre ele. 35

O que isto significa? Para alguns estudiosos, 36 primeiro, isto implica que o próprio Jesus não era o foco central de seu próprio ministério. Ele não pregou sobre ele mesmo, mas sobre o advento do reino de Deus. Ele assumia que seus ouvintes conheciam sobre a esperança escatológica e que eles esperavam sua chegada. Assim, para entendermos a missão de Jesus, devemos reconhecer que ele veio a serviço do reino esperado de Deus.

Em segundo lugar, que seu ministério representa uma reafirmação da tradição profética judaica. A despeito das inúmeras catástrofes políticas e sociais, como o exílio na Babilônia e a dominação romana, judeus piedosos esperavam por algum tipo de liberação autêntica e um messias que traria a realização de suas aspirações. Assim, a esperança escatológica repousava em duas convicções:

1) que Deus reafirmaria Sua soberania e 2) que Seu reino vindouro modificaria a ordem social existente.

O reino de Deus significava o advento da utopia, uma transformação total da realidade. A vinda do messias julgaria o mundo e liberaria Seu povo. Como explica Isaías, “o Senhor Deus enxugará as lágrimas de todo rosto” (25:8), criando novos céus e uma nova terra onde sempre haverá alegria e felicidade (65:17).

Assim, a teologia da libertação diz que o futuro reino de Deus criará uma ordem social completamente nova e duradoura. Quando o reino chega, todos os homens serão orientados verticalmente na direção de Deus se tornando Seus filhos. Além disso, haverá reconciliação e amizade duradoura entre os seres humanos. Portanto, o reino era esperado para transformar o espírito interior dos homens e reestruturar seus relacionamentos tangíveis uns com os outros. Estes dois aspectos da regência divina não podem ser separados.

O iminente reino de Deus exige vitória sobre o pecado. A pregação de Jesus ocorreu no contexto de um mundo pecaminoso. Assim, as boas novas devem ser visualizadas como liberação. Pecado não é simplesmente dizer não para Deus, mas dizer não para o reino de Deus. Assim, pecado não deve simplesmente ser perdoado, mas erradicado. Fé se refere à vitória sobre o pecado: o pecado de separação autocentrada de Deus e opressão egoísta dos semelhantes.

O entendimento de Jesus sobre o pecado em relação ao reino contém dois elementos. Por um lado, os homens pecam porque eles estão tão preocupados sobre eles mesmos, suas posses, seu status e sua segurança, que eles se recusam aceitar a vinda do reino. Por outro lado, Jesus denunciou os aspectos públicos, sociais e estruturais do pecado. Para ele, rompemos nossos laços filiais com Deus quando rompemos nossos laços fraternais com os outros. Jesus se opôs ao pecado coletivo como também ao desvio de conduta pessoal. Ele atacou os fariseus porque eles não prestavam atenção à justiça; os escribas porque eles colocavam fardos intoleráveis nas pessoas; os ricos porque eles se recusavam a compartilhar sua riqueza; os sacerdotes porque eles governavam de forma despótica.

A oposição de Jesus ao pecado estrutural pode ser vista na forma que ele associava a causa de Deus com os pobres e humildes. Ele preferiu a amizade com os explorados e alienados. Ser seu discípulo (dizem os teólogos da libertação) significa lutar por amor e justiça. Amor por Deus e amor pelo próximo eram a mesma coisa para Jesus. Somente pode-se pecar contra Deus pecando contra o homem. Somente pode-se amar Deus e ser salvo amando e servindo o homem.

Como isto está relacionado com a esperança escatológica? Escatologia implica em “crise.” O vindouro reino de Deus não confirma o status quo. Ele julga a ordem social existente e a recria em conformidade com a soberania de Deus. Deus quer melhorar cada aspecto da existência humana. Escatologia aponta para um futuro melhor para todos.

Muitos estudiosos disputariam sobre a interpretação liberacionista do reino vindouro. Ela ignora a natureza apocalíptica da mensagem de Jesus. O homem não edifica o reino através de envolvimento político, crítica social e ação revolucionária. O reino de Deus será inaugurado repentinamente, como um relâmpago. O reino chegará como um dom inesperado de Deus manifestado em atos surpreendentes de poder sobrenatural. Nosso papel não é criar o reino, mas estar observando os sinais do final dos tempos, e estar preparados para seu aparecimento.

Então o que o judeu apocalíptico queria dizer por reino de Deus? Primeiro, o reino se referia a uma efusão do Espírito. De acordo com a opinião judaica comum, no tempo dos patriarcas, todos os homens piedosos possuíam o espírito de Deus. Então, por causa do pecado de Israel – a adoração do bezerro de ouro – o dom do Espírito ficou limitado a alguns escolhidos; reis especialmente ungidos por Deus, profetas e sumo sacerdotes. Até mesmo isto desapareceu com a morte do último profeta do Velho Testamento. Uma vez que os escritos do Velho Testamento estavam completos, Deus falou somente através do “eco de sua voz” (bat qol). Entretanto, nos Últimos Dias, o Espírito retornará com visões extraordinárias, sonhos e sinais maravilhosos. No Novo Testamento, por exemplo, os exorcismos de Jesus são tratados como evidência que o Espírito tinha retornado.

Em segundo lugar, para o Judaísmo apocalíptico, o reino se referia à superação da regência cósmica de Satanás. O ministério de Jesus deveria ser interpretado como uma batalha com forças demoníacas escravizando a humanidade. Como seus contemporâneos na comunidade Qumrã, Jesus pensou em seu trabalho como escatológico, uma guerra contra os poderes invisíveis que tomaram controle da criação de Deus.

Terceiro, Jesus considerava a regência de Deus como uma realidade presente, como também um evento futuro. Ele anunciou o alvorecer de uma era apocalíptica e buscava por sua total manifestação.

Ambos os aspectos são encontrados na primeira linha da tradição. 37 Assim, a comunidade apostólica insistia que o ministério terreno de Jesus era somente um prelúdio para a consumação vindoura do reino de Deus em poder. Para os cristãos do primeiro século, o reino era “agora” e “não talvez.” De fato, os Evangelhos e Epístolas demonstram quão perturbados muitos ficaram pelo atraso imprevisto da Parusia. “Maranatha” (O Senhor, vem), eles oravam.

Não obstante, parece haver ao menos dois ensinamentos novos no apocalipticismo de Jesus. Por um lado, ele se opunha a uma visão judaica sobre o reino de Deus. Muitos de seus ouvintes assumiam que Deus era sempre o rei sobre Israel, e que Satanás estava somente dominando entre os Gentios que oprimiam o povo escolhido. Neste ponto, a mensagem de Jesus era contra a opinião defendida por seus inimigos ortodoxos. 38 Como os Essênios e João Batista, Jesus se recusou a assumir como garantida a eleição automática do povo judeu. Somente um santo remanescente tinha permanecido leal à aliança que Deus tinha feito com Abraão. Portanto, Jesus chamou seus compatriotas a se arrependerem, serem convertidos, e se aliarem com o novo povo escatológico de Deus. Seu único propósito era reunir o povo de Deus em uma comunhão bem definida que seria preparada para o advento da era messiânica. 39

Por outro lado, Jesus diferia radicalmente dos discípulos de João Batista e os sectários Qumrã em sua interpretação da natureza do santo remanescente. Para eles o reino era para um grupo selecionado de “piedosos.” Em contraste, Jesus chocou seus contemporâneos por sua oposição e esse exclusivismo. Ele proclamou a graça ilimitada de Deus. Em sua mesa, o odiado publicano, a prostituta e o conhecido “pecador” eram bem vindos. Utilizando linguagem simbólica, ele ordenou seus discípulos que convidassem os aleijados, coxos e cegos para o banquete messiânico. Aos olhos de Jesus, Deus ama os pecadores e é o Pai dos pequenos, dos pobres e dos perdidos. Assim, ele abre bem as portas, criando uma comunidade abrangente do novo povo de Deus. 40

A teologia da Unificação ensina que Jesus veio para estabelecer o reino do céu na terra. Como São Paulo escreveu, Jesus devia ser o novo Adão restaurando o jardim do Éden perdido. Para este propósito ele escolheu doze apóstolos simbolizando as doze tribos originais de Israel, e enviou setenta discípulos, simbolizando todas as nações do mundo. Como João Batista, Jesus proclamou que o esperado reino do céu estava próximo (Mateus 4:17). O método de ensino distinto de Jesus pode ser visto em seu uso de parábolas. Estas estórias refletem com especial clareza o caráter das boas novas de Jesus (evangelho), a natureza escatológica de sua pregação e a intensidade de seu chamado por arrependimento. Todas as parábolas descrevem algum aspecto do reino iminente de Deus. Cada uma desafia os ouvintes de Jesus para tomar uma decisão sobre o alvorecer da era messiânica. 41

O pensamento de Unificação corrige dois equívocos populares da esperança escatológica. O reino de Deus não se refere meramente a um reino espiritual nos corações dos piedosos. Essa noção privatizada e individualista do reino de Deus não é o que significa o Novo Testamento. Nem Jesus insinua que o reino do céu conota somente a morada dos justos após a morte. Jesus trabalhou para estabelecer a realidade de Deus na terra. Assim, a esperança escatológica tem dimensões sociais, políticas, econômicas e naturais, como também dimensões pessoais.

Agora o que o reino de Deus denotou no primeiro século no Judaísmo? O rabino Klausner afirma que o messianismo judeu consistia de duas concepções: a salvação político-nacional como também a redenção religiosa. 42 Para os ouvintes de Jesus, o Messias seria tanto um governante como um redentor. Deus ungiria esse indivíduo para livrar os judeus da opressão estrangeira e revitalizar sua religião. Ao mesmo tempo, o Messias era esperado para estabelecer o reino de Deus em âmbito mundial, reformar a sociedade, desarraigar a idolatria e colocar um fim no pecado. Fontes rabínicas descrevem o Messias judeu como um redentor forte em poder físico e poderoso em espírito que trará completa redenção para o povo judeu – e juntamente com isto, paz eterna, prosperidade econômica, ordem política e perfeição ética para toda a raça humana.

Outro ponto importante deveria ser mencionado. O Messias é um ser humano e não uma pessoa sobrenatural. Redenção vem a partir de Deus e somente através de Deus. O Messias é somente um instrumento nas mãos de Deus. Embora o Ungido ocupará um lugar central no reino celeste na terra, Deus permanece o objeto primário de lealdade e adoração para sempre. Esta visão é o conceito messiânico comum do tempo de Jesus.

Entretanto, como São Paulo e São João, os teólogos mais criativos do período do Novo Testamento, a teologia da Unificação enfatiza o pecado original do homem e o domínio satânico do nosso mundo alienado. Enquanto estas características não estejam completamente ausentes da tradição rabínica, elas são características mais presentes do Judaísmo apocalíptico e sectário a partir do qual o Cristianismo surgiu.

Uma vez que reconhecemos que Jesus foi comissionado por Deus para trazer Seu reino sobre a terra durante seu tempo de vida, é fácil entender a urgência por trás de seu ministério. Por esta razão Jesus insistiu que seus discípulos colocassem primeiro, total comprometimento com o reino iminente. Esse é o motivo pelo qual Pedro e os outros deixaram imediatamente o que estavam fazendo para seguir Jesus. Da mesma forma, isto explica os estranhos ordenamentos de Jesus, “Deixem que os mortos enterrem seus mortos” e “Esqueça a mulher com que você se casou,” porque “Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus. (Lucas 9:60-62; 14:20).

Para entrar no reino, uma pessoa deve ser perfeita, ensinou Jesus. Como o Sermão da Montanha diz, “Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.” (Mateus 5:48). Esta passagem é frequentemente ignorada ou muito mal interpretada. O que significa ser perfeito? No Judaísmo, perfeição se refere ao cumprimento das possibilidades de uma pessoa e conclusão do objetivo básico de uma pessoa como um filho de Deus. Porque a humanidade está impregnada de iniquidade, a natureza humana carece de conclusão. As verdadeiras capacidades humanas nunca alcançaram fruição por causa da escravidão do pecado. Assim, a era messiânica capacitará os homens a alcançarem o bem-estar espiritual, moral e material. 43 Como o Cristianismo Paulino, a teologia da Unificação afirma que o homem não pode alcançar suas potencialidades inatas concedidas por Deus até que ele seja purgado do pecado original. O Messias deve ser o Salvador como também o líder.

Então qual era a função do Messias no plano de Deus de redenção? Jesus foi indicado como representante terreno de Deus a fim de subjugar Satanás, limpar os homens do pecado original e libertá-los do poder do mal. A missão de Cristo envolvia liberação do pecado e elevação da humanidade ao estágio de perfeição. Seu propósito era trazer o reino do céu ao nosso mundo com a ajuda de homens cheios com verdade e amor divinos. O objetivo de Jesus era restaurar o jardim do Éden, um lugar de alegria e beleza no qual famílias verdadeiras de pais aperfeiçoados habitariam com Deus em um pleno relacionamento de amor recíproco. Para utilizar uma terminologia do Princípio Divino, o reino de Deus na terra se refere a indivíduos, casais, famílias e nações edificados sobre a base de quatro posições centrada em Deus.


34 Bultmann insiste que Jesus apareceu sem dúvida como um comissionado por Deus para pregar a mensagem escatológica do surgimento do reino. Assim, podemos atribuir a ele uma consciência profética (C. E. Braaten e R. A. Harrisville, eds., The Historical Jesus and the Kerygmatic Christ, 1964, pp. 22-24).

35 The Quest of the Historical Jesus, chap. XIX.

36 Ver Jon Sobrino, Christology at the Crossroads (1976). Sobrino, é um teólogo liberacionista espanhol ensinando em El Salvador e um jesuíta.

37 Jeremias, New Testament Theology (1971), pp. 76-108.

38 Ibid., pp. 99-100.

39 Ibid., pp. 171-173.

40 Ibid., p. 177.

41 Jeremias, The Parables of Jesus (1972); C. H. Dodd, Parables of the Kingdom (1961).

42 Cf. J. Klausner, The Messianic Idea in Israel (1955) p.392.

43 Ibid., pp. 524-525.