Cristologia Atual

O Unificacionismo concorda com tendências recentes que Jesus era humano, como também de alguma forma divino. D. M. Baillie afirmou que a questão para o Jesus histórico força a teologia a assumir a plena humanidade de Jesus Cristo de forma mais séria do que antes. No passado os fiéis não reconheciam que Cristo era “consubstancial” com eles mesmos. Eles não admitiam que crescimento humano, ignorância, mutabilidade, luta e tentação eram características da vida de Jesus. Mas agora, diz Baillie, a crença na plena humanidade de Jesus deve se tornar a sua própria crença. 13

A completa humanidade de Jesus é reafirmada por Católicos como também por Protestantes. O estudioso bíblico Católico R. E. Brown escreveu que muitos cristãos imaginam que Jesus caminhou ao redor da Galileia com um halo brilhando sobre sua cabeça. Eles ignoram o retrato do Evangelho sobre Jesus: uma pessoa às vezes cansada, irritada ou tentada e tratada como um fanático pelas instituições religiosas e políticas de seu tempo. 14

O Novo Testamento não chama Jesus de Deus? Não há uma resposta fácil para esta questão. Repetidamente nos Sinópticos, Jesus faz uma clara distinção entre Deus e ele mesmo. Por exemplo, quando Jesus ora no jardim ou a partir da cruz, ele obviamente não está falando para si mesmo. As epístolas Paulinas e as pastorais distinguem entre Deus, o Pai, e o Senhor Jesus Cristo (I Coríntios 8:6) ou entre Deus e o mediador, o homem Cristo Jesus (I Timóteo 2:5).

Mesmo no Quarto Evangelho, Cristo declara que o Pai é maior do que ele mesmo (João 14:28). Portanto, estudiosos bíblicos geralmente concluem que as partes mais antigas do Novo Testamento não falam sobre Jesus como Deus.

Entretanto, três passagens utilizam explicitamente a palavra “Deus” (theos) para descrever Jesus (Hebreus 1:8-9, João 1:1, João 20:28) e há alguns textos onde o uso da expressão “Deus” para Jesus é possível, mas não certa (Tito 2:13, 1 João 5:20, Romanos 9:5 e II Pedro 1:1). Em outras palavras, Jesus nunca é chamado “Deus” em nossas antigas fontes, mas isto se torna crescentemente comum para atribuir divindade a ele enquanto os anos passam. 15

No mundo romano do final do primeiro século não era incomum atribuir divindade a um homem excepcional. Imperadores como Augusto foram chamados “Salvador divino” ou “senhor e deus.” Além disso, os judeus como também os pagãos politeístas acreditavam que havia muitos seres sobrenaturais além de Deus, o criador. Assim, era fácil para cristãos gentios transformarem o Jesus humano em um deus a ser adorado. Esta deificação de Jesus foi difundida em meados do segundo século. 16

A teologia Judaica nunca acreditou que o Messias seria a encarnação de Yahweh. Na maioria dos casos, os judeus esperavam um ser humano para conduzir a função messiânica. O Messias seria um descendente do Rei Davi, ou um sacerdote, ou um herói militar que liberaria a Terra Prometida. Não obstante, na messiologia Judaica, o Ungido poderia ocasionalmente ser considerado uma figura sobrenatural: um Filho do Homem escatológico ou um libertador angélico. Contudo, mesmo nesses casos, uma clara distinção foi definida entre o próprio Deus e Seu agente redentor, o Messias.

Se Jesus é humano, como ele é único? Ele era excepcional porque Deus o ungiu para ser o Messias. Essa era a confissão de fé mais antiga do Cristianismo. Entretanto, para Judeus e Cristãos Judeus, a messianidade era um papel funcional, ao invés de algo ontológico. Somente a vocação de Messias era muito especial. Deus o indicou para restaurar a linhagem divina do homem e trazer o reino celeste na terra.

Mais tarde, entre os Cristãos Gentios, este título messiânico não tinha nenhum sentido ou transmitia uma mensagem perigosamente enganosa. Eles simplesmente não estavam interessados em um Messias Davídico e não queriam estar envolvidos em qualquer movimento messiânico desenvolvido para libertar a Judéia do domínio romano. Consequentemente, no início, Jesus foi descrito como o Filho de Deus nas igrejas Cristãs Gentias.

Jesus era “sem pecado” não porque ele fosse por natureza diferente dos outros homens, mas porque ele nunca se desviou do curso estabelecido por Deus. Assim, qualquer singularidade que ele possuía era derivada em última análise do que Deus estava tentando fazendo através dele. A teologia da Unificação concorda com as críticas bíblicas que negam que Jesus pensava sobre si mesmo como “o Messias Servo Sofredor” que os cristãos reinterpretaram a esperança escatológica Judaica depois que seu Messias foi executado. Isaías 53 e Salmos 22 se tornaram textos provas do Velho Testamento para demonstrar que a morte de Jesus cumpriu profecias.

A era apostólica acreditava que a morte de Jesus na cruz trouxe a salvação total do homem? De modo nenhum! Os primeiros testemunhos do Novo Testamento declaram que a cruz era apenas um prelúdio para o advento da era messiânica em poder. O Cristianismo Apostólico não é uma religião do Jesus crucificado, mas proclamação do vindouro reino divino.

Por que Jesus Cristo tem sido uma influência poderosa na história? Porque, como um antigo hino cristão coloca, Jesus era o novo Adão que foi feito à imagem de Deus. Entretanto, ao contrário de seu predecessor, o segundo Adão se humilhou e se tornou o servo obediente de Deus, mesmo para morrer na cruz (Fil. 2:5 -11). Desde o início até o fim, Jesus foi dedicado à vinda do reino.

A Cristologia da Unificação é muito próxima dos teólogos recentes, exceto em um ponto. Não obstante, essa única diferença é derivada a partir do conceito Paulino do Segundo Adão. Adão devia se aperfeiçoar harmonizando seu corpo e sua mente em total união com o coração de Deus, encarnando assim o ideal de criação. Paulo chama essa pessoa de templo de Deus (I Cor. 3:16). Os padres da Igreja Ortodoxa da Oriente como Atanásio, Gregório de Nissa e Cirilo de Alexandria descrevem esse estado aperfeiçoado como deificação. Eles ensinam que o divino se tornou humano a fim de que o humano pudesse se tornar divino. Teólogos Protestantes como Ritschl defendem que porque Jesus era o Messias, ele possuía o valor de Deus para aqueles que o seguiam. De forma semelhante, o Princípio Divino ensina, “O homem que alcançou o propósito de criação assumiria o valor divino de Deus.” 18

O objetivo original de Deus para o homem era conceder três bênçãos: Ser frutífero, multiplicar e ter domínio sobre a criação (Gênesis 1:28). Tendo alcançado perfeição individual (ser frutífero), Adão estava com a bênção de Deus para se casar com Eva e produzir descendência (multiplicar), criando uma base quádrupla no nível familiar. Nesse fundamento, Adão e Eva poderiam receber a terceira bênção (ter domínio), tornando-se senhores de toda a criação e verdadeiros pais da humanidade. Como o Segundo Adão, Jesus estava destinado a conduzir estas responsabilidades. O Messias deve inaugurar uma nova família de Deus.

Por causa da queda de Adão, Jesus devia subjugar Satanás erradicando a raiz do pecado original antes de receber a segunda bênção. Entretanto, condições além de seu controle tornaram impossível que ele completasse sua missão. Como os Judeus sempre indicaram, a era messiânica nunca chegou. Ou como os Protestantes conservadores acreditam, o reino chegará quando o Segundo Advento ocorrer. Não obstante, através de seu ministério e ressurreição, Jesus estabeleceu um fundamento espiritual para a continuidade da obra de Deus através da Igreja Cristã.


13 D. M. Baillie, God Was in Christ (1955), p. 11.

14 R. E. Brown. Jesus. God and Man (1967), prefácio, p. ix.

15 Ibid., p, 31: Se o tempo do Novo Testamento é datado de 30-100 D. C., o uso da palavra theos (Deus) para Jesus pertence à segunda parte desse período.

16 Ibid., p. 31 Ignácio de Antioquia (d. circa 107 D. C.) escreve sobre nosso Deus, Jesus Cristo” e “Jesus Cristo, o Deus.” By 150, 11 Clemente diz, “Brethren, devemos pensar sobre Jesus Cristo como Deus” (1:1). Cf. J. Hick, ed., The Myth of the Incarnate God (1977), pp. 87-119.

17 Cf. Geza Vermes. Jesus the Jew (1973).

18 Divine Principle, p. 206.