Teologia Apocalíptica e Moderna

Sendo que Jesus pregava as boas novas do reino que estava próximo, qual significado sua mensagem tem hoje? Vamos examinar brevemente cinco visões contrastantes do apocalipticismo de Jesus.

1. A mensagem escatológica de Jesus não é uma parte essencial de seus ensinamentos, alguns dizem. Mesmo se a visão de mundo apocalíptica fosse provada falsa, isto de nenhuma forma afeta o núcleo da fé cristã. Por exemplo, Harnack acreditava que a esperança escatológica obsoleta dos primeiros cristãos poderia ser descartada sem afetar a essência do Cristianismo. O que o erro apocalíptico tem a ver com a paternidade de Deus, o valor infinito de cada alma humana e a fraternidade do homem que era a mensagem real de Jesus? 13

2. Os fundamentalistas sempre insistiram que uma pessoa deve acreditar como Jesus na vinda do Dia do Julgamento de Deus. Mas eles insistem que Jesus estava falando sobre um futuro segundo advento do Filho do Homem nas nuvens. Repetidamente na história da igreja os homens têm revivido este tipo de mensagem apocalíptica. A Parusia foi prevista para o ano 1.000, para 1.600, para 1.844 e 1.914, por exemplo. Assim, o que os neo-evangélicos fazem é aceitar as profecias do Novo Testamento dos Últimos Dias enquanto mudam o cronograma. Consequentemente, em anos recentes têm ocorrido inúmeros grupos que advertem sobre a aproximação sobrenatural de Cristo. 14 Entretanto, este reaparecimento do apocalipticismo tem se limitado, em grande parte, a grupos marginais na extremidade do Cristianismo principal.

3. Não obstante, dentro das igrejas estabelecidas desde a Primeira Guerra Mundial vários teólogos importantes têm insistido sobre a relevância da dimensão escatológica da fé bíblica. Karl Barth, por exemplo, no começo de sua carreira declarou que se o Cristianismo não é visto completamente através da escatologia, nossa pregação não tem nenhuma relação com Cristo. 15

Entretanto, a definição de Barth sobre escatologia não deveria ser confundida com a visão Fundamentalista. A que se refere a escatologia? Ela indica a transcendência absoluta de Deus. Para os primeiros Barthianos, Deus é o Outro Completo: Deus está no céu e o homem está na terra. Há um abismo entre homem e Deus. Ele é completamente transcendente porque existe um abismo separando o Criador da criação, e o homem pecador do Deus Santo. Portanto, Barth interpretou escatologia como um lembrete da distinção infinitamente qualitativa entre o temporal e a eternidade. 16

Barth utilizou esta definição de escatologia para atacar o liberalismo Protestante. Ele enfatizou a transcendência divina contra a ênfase liberal sobre a imanência de Deus. Sendo que Deus é o Outro Completo, Ele não é identificado com as experiências religiosas do homem ou seus programas de reformas sociais. Ainda mais importante, sendo que Deus é transcendente, não podemos alcançá-Lo utilizando a razão, mas devemos depender da revelação. Insistindo na natureza escatológica do Cristianismo, Barth sente que ele poderia restaurar a autoridade da Bíblia, corrigir o orgulho humano e reafirmar a soberania absoluta de Deus. 17

4. Bultmanm também reconhecia a importância central da escatologia do Novo Testamento, mas tratou seu significado de forma muito diferente. Ele afirma que os ensinamentos apocalípticos de Jesus devem ser desmistificados pela tradução deles em uma linguagem do existencialismo. O que o Novo Testamento diz para nós como indivíduos? A escatologia aponta para a “auto compreensão” de todos.

Nosso mundo é transitório, por isso nos sentimos inevitavelmente inseguros em face do futuro. Todos somos ameaçados pelo fim do nosso mundo. Não há nenhuma maneira de se agarrar às nossas posses ou mesmo nossas vidas. Além de ser transitório, nosso mundo também está vazio porque os homens o transformaram em um lugar onde o pecado rege. Nos sentimos culpados por causa de nossas ações passadas defeituosas. O que Jesus queria dizer sobre o reino estar próximo? Somos humanos, o que implica que somos criaturas responsáveis. Estamos sobrecarregados com culpa e ansiedade porque somos livres para fazer ou prejudicar nossas vidas. Ao nos advertir sobre a vinda do reino, Jesus enfatizou a importância crucial do futuro. Ele nos chama a agir de forma responsável, para executar a vontade de Deus.

Por que o futuro é tão importante? Ele será o julgamento de Deus sobre nossa vida presente. Não obstante, Deus também defende a possibilidade de um amanhã melhor. O futuro nos oferece liberdade para sermos nós mesmos de uma forma mais autêntica. Assim, devemos olhar para frente com anseio e expectativa. Portanto, como dizia Bultmann, vamos estar prontos para o desconhecido. Vamos estar abertos para o futuro de Deus.

Deus nos chama da nossa vã segurança criada pelo homem. Não podemos preservar o passado. Assim, devemos responder ao desafio da bondade, verdade e amor. Nossa única segurança vem da confiança em Deus. Estaremos livres quando aceitamos nossa responsabilidade pessoal. Então o fiel sempre pergunta o que a palavra de Deus diz para ele em seu presente real. Cada “agora” é um momento de decisão, porque em cada “agora,” o reino de Deus está à nossa disposição. 18

5. Recentes teólogos da esperança têm criticado Bultmann por ser muito individualista. O Cristianismo é mais do que tomar decisão privada, eles defendem. Assim, o teólogo Católico alemão Johannes Baptist Metz realça as implicações sociais ou públicas da esperança escatológica. 19

Na visão de Metz, quando Jesus proclamou a proximidade do reino de Deus, ele exortou os homens a se concentrarem no futuro. Deus é um Deus de promessa, dizem os estudiosos do Velho Testamento. Consequentemente, ser fiel à tradição bíblica é orientar nossas vidas na direção da futura promessa de Deus.

O apocalíptico é direcionado para o futuro. Ele também enfatiza que a realização do plano de Deus resultará em grandes mudanças históricas. O propósito de Deus para o futuro realizará completamente nossas potencialidades humanas no plano histórico. Portanto, a fé cristã deve ser centrada na esperança ou expectativa criativa. Deus não está simplesmente “acima de nós,” mas “à frente de nós.”

Uma teologia escatológica deve ser tanto criativa como militante. Ela congratula-se com o novo e não tenta preservar o passado. A fé apocalíptica sempre critica o status quo social. Portanto, ela também é uma fé militante. Estudiosos estão equivocados ao pensar que a literatura apocalíptica hebraica ou cristã recomenda a espera passiva que Deus nos conceda o reino pronto. Somos trabalhadores chamados para construir o futuro. Os cristãos são desafiados a transformar o mundo no reino de Deus.

Finalmente, Metz ensina que o apocalíptico não deveria estar limitado à noção de salvação pessoal. Porque o futuro de Deus é o reino, o apocalíptico tem teologia apolítica. Como uma força liberadora e profética na sociedade, os cristãos devem se tornar engajados nestes esforços mundanos na direção da justiça universal e da paz internacional.


13 A. Hamack, History of Dogma, vol. 1, p. 101 fala do apocalíptico como “uma má herança” que o Cristianismo recebeu dos judeus.

14 Ver, por exemplo, documentos lidos no Sétimo Congresso sobre Profecia em C. L. Feinberg, ed., Jesus the King is Coming (1973).

16 K. Barth, Epistle to the Romans (1922), p. 314. Ver sua explicação sobre Church Dogmatics 11, vol. 1 (1958), pp. 631-638.

17 Cf. K. Barth, The Word of God and Word of Man (1928).

18 R. Bultmann, The Presence of Eternity (1962); também sua Theology of the New Testament (1955), vol. 1, caps. iv e v.

19 J. B. Metz, Theology of the World (1973 ed.).