Uma Teologia da História

Concordando com a herança judaico-cristã, a teologia da Unificação afirma que a história se move na direção de um objetivo positivo. De acordo com a Bíblia, Deus criou Adão e Eva para serem os Verdadeiros Pais da humanidade. Se eles tivessem continuado em comunhão com Deus e resistido à tentação de Lúcifer, seus descendentes teriam habitado no reino do céu ideal na terra, simbolizado no Gênesis pelo jardim do Éden. Portanto, o propósito de Deus para a humanidade é que cada indivíduo viva uma vida útil e alegre, e que todo o nosso mundo esteja preenchido com justiça, harmonia e paz.

A despeito de toda a tolice, injustiça e busca egoísta do prazer pelo homem, Deus ainda está determinado a realizar Seu propósito original de criação. Independente de nossos pecados, o amor de Deus permanece firme. Assim, Ele tem direcionado o curso da história a fim de restaurar o homem e a natureza ao seu estado original. 20

A Bíblia registra o trabalho que Deus tem exercido para a redenção da humanidade. No Velho Testamento lemos como Deus escolheu e utilizou os patriarcas e profetas hebreus para estabelecer um fundamento para a era messiânica de justiça, piedade e paz para toda a humanidade. Como temos visto, a literatura apocalíptica judaica representa um grito de esperança que surge a partir de uma situação de desespero generalizado. Nesse espírito Jesus pregava o iminente advento do reino. No entanto, por causa da estreiteza religiosa e arrogância partidária, o Messias foi pregado na cruz. O plano de Deus para a restauração do homem tem sido prolongado até que a obra de Jesus possa ser trazida à conclusão em uma época futura. De acordo com o Novo Testamento, o propósito de Deus para a humanidade somente será realizado plenamente quando este mundo é transformado no reino do céu.

Entretanto, muitos Fundamentalistas insistem que a consumação da 21 história não pode ocorrer até que o mundo existente esteja completamente destruído.

Em outras palavras, eles insistem na interpretação literal das profecias apocalípticas nas Escrituras. Assim, nos Últimos Dias o sol escurecerá, a lua não dará mais claridade, as estrelas cairão do céu, e a terra será inteiramente consumida por fogo (Mateus 24:29, II Pedro 3: 10). De acordo com esta visão, Deus deve destruir nosso mundo para criar espaço para uma nova terra e novo céu onde Sua soberania será respeitada.

Entretanto, os fundamentalistas ignoram a natureza simbólica da literatura apocalíptica. Deveria ser muito óbvio para todos que esses escritos como Daniel e o Apocalipse não devem ser interpretados literalmente. Por exemplo, quando Daniel fala de um cabrito com um chifre proeminente entre seus olhos, ele não está falando sobre um animal, mas está simbolizando o império macedônio de Alexandre, o Grande (8:5, 21). Ou quando o Apocalipse descreve uma mulher vestida com o sol, com a lua sob seus pés e com uma coroa de doze estrelas em sua cabeça, não se espera que pensemos sobre uma pessoa de verdade (12:1). Para compreender a mensagem apocalíptica, deve-se entender que ela foi intencionalmente escrita em uma linguagem simbólica que deve ser decodificada. Assim, as expressões bíblicas sobre os Últimos Dias e o fim do mundo devem ser interpretadas com muito cuidado.

Explicar estes termos literalmente negaria a fé bíblica em um Deus de amor vitorioso. Se o céu e a terra devem ser destruídos, então o ideal de criação de Deus seria totalmente anulado. Se o propósito de Deus para esta terra nunca pode ser cumprido, Ele não pode ser realmente Todo-Poderoso. Para Deus ser forçado a explodir Sua criação significa que Ele foi imprudente ao ter formado este universo em primeiro lugar ou que o homem através de sua desobediência e pecado pode frustrar permanentemente o propósito de Deus. Nenhuma destas alternativas pode ser reconciliada com a doutrina cristã sobre Deus.

Quando Jesus se referiu ao fim do mundo, ele queria dizer o fim da soberania de Satanás. 22 Como o Messias, Jesus era esperado para inaugurar uma nova era para a humanidade, terminando o domínio satânico pelo cumprimento das Escrituras judaicas e trazendo um fim à Era do Velho Testamento. Porque isto não foi cumprido completamente por Jesus e seu ministério terreno, seus discípulos olharam em frente para o Segundo Advento no qual a regência de Deus seria manifestada em poder. Assim, no Novo Testamento, o fim do mundo é identificado com a Segunda Vinda de Cristo. Quando Cristo vem novamente, ele cumprirá tanto o Velho Testamento do Judaísmo como o Novo Testamento do Cristianismo com a nova revelação de Sua Palavra. O novo Cristo também subjugará Satanás e terminará com este mundo destruindo a soberania do mal e restaurando a soberania original de Deus de bondade.

Todos os apocalipses concordam que o Fim dos tempos será anunciado por sinais surpreendentes de deterioração moral, desintegração social e declínio religioso. Isto é, as fontes comuns de iluminação moral e espiritual não brilharão mais tão intensamente. Neste sentido simbólico, o sol escurecerá e a lua estará escondida atrás das nuvens.

Esta não é nossa condição atual? Se lemos corretamente os sinais dos tempos, já não estamos no fim de nossa era? Portanto, não deveríamos estar atentos para o retorno de Cristo e o nascimento da era messiânica há muito adiada?

Profetas apocalípticos sempre têm advertido que o Fim dos tempos incluiria o Juízo Final de Deus. O que eles querem dizer com a ideia do Juízo Final? De acordo com a teologia da Unificação, desde a queda de Adão, o mal esteve se expandindo agressivamente e o bem tem amplamente permanecido na defensiva. A fim de Deus cumprir Seu propósito de criação é necessário inverter este processo. Para inaugurar a Nova Era, o Messias deve assumir a ofensiva. Quando Deus obtém um ponto de apoio nesta terra para Seu reino, as forças da justiça serão capazes de alcançar domínio e o poder do mal começará a declinar.

No esquema apocalíptico, o Juízo Final marca o ponto de cruzamento quando o bem assume a ofensiva e as forças de Satanás começam a recuar. Assim, o Juízo Final representa um tempo quando o pastor separa as ovelhas das cabras e o agricultor separa o trigo do joio. Então, finalmente nesta separação crucial de bem e mal, o lado de Deus começará a travar uma guerra bem sucedida contra o principado satânico deste mundo.

Como o mal pode ser derrotado de forma permanente? Somente erradicando as raízes do mal na natureza humana. Somente pela remoção do pecado original do homem a partir de onde fluem todas as ações de iniquidade. Assim, a obra principal do Messias é destruir o pecado original, porque nesse ponto, Satanás tem firme controle sobre todos os homens. Enquanto o Juízo Final progride, uma nova era gradualmente tomará o lugar da antiga. A restauração humana ocorrerá em dois estágios.

Primeiro, o coração do homem deve ser restaurado ao seu estado original – Agostinho observou que sob o curso de Adão, os homens decaídos são “incapazes de não pecar.” Assim, somente pela erradicação do pecado seremos capazes de ser livres para fazer o bem e restabelecer comunhão amorosa com Deus. Segundo, porque o coração do homem é purificado, seu ambiente também será capaz de ser melhorado.

A teologia da Unificação difere bastante de três visões comuns. Primeiro, ela discorda daqueles cristãos que acreditam que o reino de Deus pode ser realizado na terra através somente de reformas sociais e aprimoramentos tecnológicos. Esta é a fraqueza fatal dos teólogos da libertação e ativistas sociais evangélicos. Não podemos inaugurar o reino simplesmente abolindo os armamentos nucleares, decretando legislações de direitos civis, criando uma economia socialista ou alguma outra reforma política externa. Até que o poder corruptor do pecado original seja superado, o homem não pode realizar o plano de Deus para a criação. Não transformamos um porco em uma pessoa transferindo-o de um chiqueiro para uma mansão. Restauração ou redenção deve se originar de dentro. Em segundo lugar, Unificacionistas discordam dos evangélicos conservadores que reivindicam que o pecado original é erradicado através do sacramento do batismo. Por um lado, não há nenhuma evidência que a Inglaterra em 1830 ou a Alemanha em 1910 ou a Itália em 1960, onde quase todas as crianças foram batizadas, se tornaram nações com uma ordem social justa. Por outro lado, São Paulo, que ostentou uma elevada opinião sobre o batismo, advertiu claramente aos cristãos batizados que eles ainda devem lutar com os poderes da iniquidade e ainda estão sujeitos a tentações mundanas.

Por causa destes fatos, Paulo olhava na direção de uma Segunda Vinda de Cristo quando Deus triunfaria completamente. Terceiro, a teologia da Unificação é contrária ao realismo profético de Niebuhr porque ele nega que a vontade de Deus nunca poderá ser plenamente realizada sob limitações temporais. Para ele, o reino permanece uma “possibilidade impossível,” um ideal na direção do qual deveríamos nos esforçar para sempre sem jamais esperar alcançá-lo. Mas essa teoria enfraquece muito o impulso social da esperança cristã. Como Rosemary Ruether indica, o conceito de Niebuhr do reino destrói a esperança social. A maioria dos homens irá parar de se esforçar por um objetivo que eles acreditam estar além do alcance humano. Assim, o realismo de Niebuhr resulta em satisfação complacente com expectativas mínimas e apoia indiretamente o status quo. A menos que acreditemos na possibilidade de um reino na terra real, tendemos a perder a confiança em nossa capacidade de mudar nossa sociedade imperfeita. 23 Consequentemente, o pensamento de Unificação afirma a esperança cristã na realização do plano de Deus aqui e agora.

Em relação à consumação da história, é importante observar como o Princípio Divino vai além do ideal cristão convencional de perfeição individual. Para a teologia da Unificação, é necessário que o Messias forme uma base de quatro posições no nível familiar. A literatura apocalíptica tradicional mais antiga tem sido tão individualista ou então tão nacionalista. A anterior ignora a dimensão social do propósito definitivo de Deus. A posterior exagera no valor do individual e ainda é muito estreita quando restringe o interesse de Deus a uma única nação.

Os Unificacionistas evitam tais fraquezas ao enfatizar o significado crucial da família centrada de Deus. Além disso, ao estabelecer uma família aperfeiçoada, o Messias assegura a continuidade do reino de Deus. Como o indivíduo centrado em Deus pode perpetuar o estado aperfeiçoado além de seu próprio tempo de vida? A história está cheia de relatos de comunidades utópicas que desapareceram ou declinaram com a passagem de seus fundadores. Para a teologia da Unificação, a reivindicação de ter subjugado Satanás e erradicado o pecado original pode ser demonstrada quando indivíduos centrados em Deus se unem em famílias centradas em Deus para produzir filhos centrados em Deus. Isto é, a prova final da eficácia do Messias pode ser vista quando sua própria dedicação total a Deus é transmitida para futuras gerações. Finalmente, ao contrário da maioria das teologias apocalípticas da história, o Princípio Divino enfatiza os aspectos positivos do Fim dos tempos. Muitos apocalipses parecem ter sido projetados para assustar seus leitores. Mesmo intérpretes cristãos do Livro do Apocalipse geralmente tratam a consumação da história em termos de terríveis profecias de tristeza e desgraça. Em contraste, a teologia da Unificação olha para a era vindoura como um tempo de esperança cumprida e alegria intensa. Quais são então os presságios que nosso tempo está testemunhando do alvorecer da era messiânica? Deveríamos ser capazes de ver com nossos próprios olhos alguns sinais claros que Deus está agora realizando Seu propósito de criação.

Primeiro, o nosso é um período de intensa esperança espiritual. Concorrente com o declínio generalizado da religião convencional, grande número de pessoas está buscando uma experiência pessoal de comunhão com Deus e está esperando com mente aberta que Deus revele as novas verdades adequadas para o nosso tempo único.

Segundo, o nosso é um tempo ciente da necessidade desesperada por harmonia e unidade. De muitas formas diferentes, as pessoas modernas estão buscando a détente internacional, entendimento inter-religioso, amizade inter-racial, cooperação interdenominacional e partilhar intercultural. A despeito de conflitos maiores dentro e entre muitas nações, quase todos concordam que devemos aprender de alguma forma como resolver nossas diferenças de forma pacífica. 24

Finalmente, com os surpreendentes avanços científicos e tecnológicos de nosso século, o homem é ao menos capaz de exercer controle efetivo sobre a natureza. A terceira promessa de Deus para Adão está se tornando realidade. O domínio do homem moderno sobre a criação está à vista. Podemos ter esperança em nosso tempo? Claro, desde que olhemos ao nosso redor com os olhos da fé. Tudo sobre nós são sinais indicando que a velha história alcançou sua consumação, e um novo dia está alvorecendo quando o princípio de criação providencial será cumprido. Embora a neve ainda cobre o solo e esteja frio, tudo que há é o sinal de um amarelo em flor para compreender que a primavera está próxima.


20 Princípio Divino, pp. 195-203.

21 Cf. C. L. Feinberg, ed., Prophecy and the Seventies (1971); H. Lindsey, The Late Great Planet Earth (1970).

22 Princípio Divino, pp. 111-112.

23 R. Ruether, The Radical Kingdom (1970), p. 202.

24 Cf. as conferências em 1974 de Terry em Yale dadas pelo educador Católico Theodore Hesburgh: The Human Imperative. Aqueles que trabalham por um novo homem e uma nova terra estão criando e redimindo a tempos, ele insiste. Portanto, os cristãos são inspirados a amar a Deus amando os homens e a edificar uma comunidade humana que possa também, pela graça de Deus, ser um reino de Deus (p. 11).