Restauração Através de Indenização

Basicamente, a tradição Judeu-cristã é uma religião de redenção como também de revelação. Não somente queremos conhecer sobre a natureza de Deus, mas também devemos redirecionar nossas vidas atuais em conformidade com Sua vontade. “O que eu devo fazer ao ser salvo? Como uma pessoa pode ser renascida? Onde está o caminho que conduz para a vida abundante, aqui e na vida após a morte?” Estas são as questões fundamentais levantadas pelas Escrituras.

Para a teologia da Unificação, a história deve ser interpretada como o esforço persistente de Deus para restaurar o homem decaído para sua natureza original. A providência divina se refere à nossa recriação e restauração. Somos salvos quando, com a ajuda de Deus, somos capazes de nos separarmos de Satanás. Os homens se tornam redimidos através da liberação da escravidão do mal, são limpos do pecado original e crescem para a plena estatura de filhos e filhas de Deus.

 

Qual é nossa atual condição? Porque fomos criados por Deus, mantemos laços com nosso Criador, que nada é capaz de cortar isto completamente. Ao mesmo tempo, por causa da Queda, todos os homens se tornaram agentes conscientes ou inconscientes de Satanás. Para utilizar a linguagem colorida do Princípio Divino, Satanás entrou e se tornou parte de nosso próprio sangue. Assim, cada indivíduo se encontra colocado em uma posição de meio caminho entre Deus e Seu Adversário. Enquanto Deus está tentando constantemente nos puxar para cima, Satanás está também nos puxando vigorosamente para baixo. Portanto, nos encontramos em uma situação limítrofe entre a felicidade do paraíso e a agonia do inferno. Quando agimos moralmente, nos colocamos com Deus, e quando pecamos, sedimentamos nossa aliança com Satanás.

Como este estado desconfortável e insatisfatório pode ser alterado? O homem pode somente transformar esta condição através de indenização, ensina o Princípio Divino2 O que isto significa? No mundo secular, indenização se refere ao pagamento de uma dívida. Nos tornamos livres quando pagamos o que devemos. Ou para utilizar uma linguagem cristã tradicional, expiamos nossos pecados através de atos específicos de penitência. Portanto, por muitos séculos a Igreja desenvolveu um elaborado sistema penitencial pelo qual os homens decaídos poderiam se separar de Satanás e alcançar total reconciliação com Deus.

Baseado nos entendimentos derivados da Bíblia, o Cristianismo tem ensinado que poderíamos ser indenizados ou liberados do pecado de três maneiras. Primeiro, uma pessoa poderia expiar um pecado compensando por ele com alguma boa ação. O famoso lex talionis do Velho Testamento baseava-se neste princípio: para qualquer dano causado a outra pessoa, deve-se expiar olho por olho, dente por dente, ferida por ferida (Ex. 21:23 -25). Por exemplo, na maioria das sociedades antigas, se um homem é considerado culpado por assassinato, ele deveria perder a sua própria vida. Ou se ele vende mercadoria de má qualidade, ele deveria recompensar sua vítima com bens satisfatórios.

Uma segunda forma de indenização consiste no reembolso em um valor menor do que a quantia do débito original. No direito penal atual, um assassino não pode ser sentenciado à morte, mas ao invés é aprisionado por um longo período de tempo.

Ou no caso de endividamento financeiro, uma pessoa que empresta uma grande quantia que não pode pagar, pode ser ordenada pelo tribunal a liquidar seus ativos e pagar seus credores dez centavos por cada dólar que ele deve. Um arranjo semelhante tem frequentemente funcionado na religião. Por exemplo, muitos cristãos acreditam que o pecado original pode ser removido através do batismo e a fé na obra expiatória de Cristo.

Uma terceira exigência às vezes também é demandada. Podemos ter que pagar um preço mais elevado para remover os efeitos de nossos erros. Por exemplo, quando os hebreus enviaram espiões em Canaã por quarenta dias para ver se a entrada na Terra Prometida era possível, os relatos que eles trouxeram foram tão desencorajadores que ninguém se atreveu a seguir em frente como eles tinham originalmente planejado. Como resultado, sua falta de fé os forçou a atrasar a marcha para Canaã por quarenta anos (Num. 13-14). Tendo perdido uma oportunidade, podemos frequentemente pagar uma indenização muito maior, a fim de alcançar futuro sucesso. Pecados são acumulados uns sobre os outros tornando o caminho de restauração muito mais difícil. Como o provérbio nos adverte, “Um ponto no tempo economiza nove.”

Como uma pessoa estabelece a condição adequada para uma indenização satisfatória? A única forma de apagar os efeitos secundários do pecado é inverter o curso que o homem tomou que causou a perversão de nosso estado original. Para utilizar a linguagem mística do Quarto Evangelho, devemos nascer de novo. Se o homem causou grande dor ao coração de Deus desobedecendo-o, se rebelando contra Ele, e corrompendo a natureza humana, ele somente pode reparar o dano através de disciplina penitente, obediência consciente à vontade divina e meticulosa restauração de sua natureza original como filho amoroso de Deus. Como Jesus ensinou em sua parábola, uma vez que o filho pródigo reconhece a loucura de seus caminhos, ele deve trabalhar seu caminho de volta para a casa de seu Pai.

Como os primeiros cristãos expiavam pela forma como Jesus foi rejeitado por eles mesmos, oposto por sua família, negado por seu discípulo principal e abandonado por seus companheiros mais próximos? A fim de que o movimento cristão superasse a tragédia da crucificação, era necessário que os membros da comunidade apostólica suportassem o escárnio popular, sofressem perseguição e até mesmo morressem em nome de sua fé. Como Jesus, os primeiros cristãos foram zombados, ridicularizados e odiados. Nada além do sangue de incontáveis mártires era suficiente para superar os obstáculos criados pela contínua lealdade a um Messias condenado e crucificado.

Quem pode erradicar as manchas na criação de Deus causadas pelo pecado? Deus pode simplesmente fechar os olhos para a desobediência, egoísmo e rebelião da humanidade? A honra de Deus pode ser restaurada meramente pela liberação de Sua ira sobre um substituto sofredor e inocente, como alguns teólogos parecem ensinar? Não se alguém acreditar na responsabilidade do homem e na natureza amorosa de Deus. Porque o homem falhou em assumir sua porção de responsabilidade original e caiu sob o domínio de Satanás, o homem deve se restaurar aos olhos de Deus cumprindo as obrigações implícitas de sua posição. Não há nenhuma forma, senão que vocês “trabalhem em sua própria salvação” (Fil. 2:12). O próprio homem deve estabelecer as condições que permitem Deus realizar Seu propósito de criação. Não estamos salvos, de acordo com Jesus, simplesmente dizendo, “Senhor, Senhor,” mas fazendo a vontade de nosso Pai que está no céu (Mateus 7:21).

O conceito do Princípio Divino sobre indenização está enraizado no ensinamento Judeu-cristão de uma lei ética de causa e efeito. Colhemos o que semeamos. Como Jesus ensinou, uma pessoa não pode esperar colher figos de cactos. Uma pessoa deve edificar sua vida em bases sólidas, pois uma casa edificada na areia será arrastada pelas tempestades. No Hinduísmo e Budismo, um conceito semelhante de lei moral é chamado karma. Se alguém faz o mal, não há como escapar das consequências. De algum modo em algum momento ele deve pagar o pesado preço e restaurar seu estado adequado através da compensação de muitas ações boas.

Bonhoeffer logo reconheceu quão facilmente o conceito da Reforma Protestante sobre salvação pela graça pôde distorcer o kerygma do Novo Testamento. Consequentemente ele atacou a ampla confiança evangélica na “graça barata,” graça sem custo, sem discipulado, sem total obediência à causa do reino. Que tipo de discipulado Jesus exigiu? Ele não exigiu uma confissão de crença nele mesmo, mas obediência à autoridade do reino. Jesus pediu para os homens o seguirem, para serem tão dedicados a Deus como ele era. Como Bonhoeffer formulou, discipulado significa que somente aquele que é obediente realmente acredita, e somente aquele que acredita é realmente obediente. Jesus declara: Primeiro obedecer, renunciar a seus apegos do mundo comum, abandonar os obstáculos separando você da Vontade de Deus. 4 Seguindo Bonhoeffer, teólogos insistiriam que ainda mais crucial do que ortodoxia 5 (doutrina certa) é ortopráxis (fazer certo).

Entretanto, alguns podem perguntar, a ênfase na ortopráxis não está ignorando o primado da graça divina? Se ressaltamos a porção de responsabilidade do homem, negligenciamos o papel supremo de Deus na salvação da humanidade? O Princípio Divino não é um novo Pelagianismo, um reavivamento da “justiça das obras”? 6 A teologia da Unificação, como os Puritanos do século XVII, entende a restauração em termos da parceria bíblica de Deus e o homem. Salvação pode ser alcançada somente em um relacionamento de aliança. Deus não pode redimir o homem sem a cooperação do homem, e o homem não pode ser restaurado ao seu estado original sem a ajuda constante de Deus.

Unificacionistas não minimizam o papel de Deus no processo de redenção. Para ver como isto funciona, vamos olhar novamente para o processo de restauração. O homem decaído se encontra sujeito ao domínio satânico. Satanás continuará seu domínio sobre nós até que paguemos total indenização para nossa liberdade. Esse é um lado do problema de salvação. Mas também devemos ser reconciliados com Deus. Neste ponto a situação é muito diferente. Não há realmente nenhuma forma que o homem possa expiar por ele mesmo pela intensa ingratidão que ele tem demonstrado em relação ao seu Criador. Entretanto, Deus espera pela reconciliação tanto quanto o homem, por isso Ele aceita graciosamente um reembolso simbólico por tudo que Ele sofreu. Se doamos a nós mesmos para Deus, embora tudo que temos cubra somente 5% do custo total da redenção, Deus contribui feliz pelos 95% restantes. Embora essas figuras sejam somente simbólicas, elas mostram que a teologia da Unificação reconhece o papel primário de Deus na restauração enquanto insiste na porção de responsabilidade do homem. De modo algum o Princípio Divino é um retorno ao Pelagianismo. Ao mesmo tempo, o Unificacionismo difere do Agostinianismo que afirma a salvação somente pela graça. Como a Ortodoxia do Oriente, ela acredita em sinergismo. Deus e o homem cooperam: Deus como o agente primário da redenção, o homem como um instrumento necessário, embora secundário.


Princípio Divino, pp. 223-224.

Evangélico na Europa geralmente se refere a Luteranos enquanto na América o termo se aplica a Protestantes da Reforma e Fundamentalistas da Batista ou Pietistas de fundamento Metodista. As críticas de Bonhoeffer estão direcionadas a todos os tipos de Evangélicos.

4 D. Bonhoeffer, The Cost of Discipleship (1963), pp. 69, 73.

5 Por exemplo, J. B. Metz and Harvey Cox.

6 Paulo, Lutero e teólogos neo-ortodoxos têm sido particularmente hostis a qualquer noção de salvação por obras, porque isso implicaria que o homem pode salvar a si mesmo. Bonhoeffer e outros tentaram corrigir o extremo Paulinismo insistindo tanto na graça de Deus como na obediência do homem.