Uma Visão Bíblica da História Cristã

De acordo com a visão mundial profética do Velho Testamento, Deus formata os eventos históricos em conformidade com Seu plano pré-determinado. Porque o povo escolhido de Israel acreditava que Yahweh afirma Sua majestade na história, eles foram impulsionados adiante por um senso de destino. Os hebreus consideravam suas ações como uma resposta à aliança de Deus, por isso eles estavam confiantes que algum dia o reino de Deus se tornaria uma realidade viva. 8

O que a teologia da Unificação faz é utilizar esta estrutura bíblica de história de salvação para explicar o padrão de avanço do Cristianismo. Embora esse método pareça bastante natural à luz da fé bíblica, o Princípio Divino realmente representa uma abordagem bastante inovadora. Onde antes se fez um esforço tão consistente para comparar o padrão de história de salvação do Velho Testamento com os eventos da era cristã posterior?

Os teólogos da libertação enfatizam a importância do fato que Moisés libertou as tribos hebraicas dos quatro séculos de escravidão egípcia. A fé do Velho Testamento está baseada em duas experiências: escravidão e liberdade. No tempo do Novo Testamento, o Evangelho de Mateus compara Jesus a Moisés: a missão de Jesus era libertar o homem do cativeiro satânico e seus ensinamentos forneciam uma nova Torá para o segundo Israel. Portanto, deveríamos olhar para algum tipo de paralelo entre os quatro séculos no Egito e o primeiro período da história cristã.

Que evidência existe para demonstrar que o Cristianismo antigo se assemelha ao período de escravidão no Egito? Em ambos os casos, os fiéis enfrentaram oposição de um poder secular dominante. Como os hebreus foram subjugados por um Faraó cruel, os cristãos foram severamente perseguidos por alguns Césares romanos. Somente quando Constantino se tornou imperador no século IV, a fé em Jesus Cristo foi tolerada como uma das religiões legítimas do mundo romano. Assim, os dois períodos ilustram a lei bíblica de restauração através do pagamento de indenização.

Os primeiros quatro séculos do Cristianismo fizeram uma marca permanente em seu futuro. Dentro desse período, o então movimento cristão fluído assumiu uma forma estrutural sólida. Como a Igreja triunfou sobre seus inimigos? Enfatizando a importância da unidade. Somente um Cristianismo unido poderia sobreviver em um mundo hostil. Assim, a Igreja gradualmente criou um cânon do Novo Testamento, um credo básico e um clero com autoridade.

Talvez igualmente importante a longo prazo fosse a primeira filosofia cristã sobre história elaborada pelo bispo norte-africano Agostinho. Por que sua Cidade de Deus foi tão influente? Primeiro, porque era baseada na condição decaída do homem e na determinação de Deus de restaurar Sua criação. Segundo, porque considerava a história como uma luta entre a cidade dominada pelo mal deste mundo e a Cidade ideal de Deus. Terceiro, porque Agostinho ressuscitou as esperanças dos homens em um tempo de desastre político e desespero espiritual causados pelas conquistas bárbaras da cidade de Roma. E quarto, porque a Cidade de Deus lembrava os cristãos de suas responsabilidades práticas na realização do projeto original de Deus para a criação.

Uma vez que as tribos hebraicas entraram na Terra Prometida, teve início uma longa era dos Juízes que terminou com Samuel. O Velho Testamento descreve este segundo período como um tempo de turbulência. Um momento semelhante de problemas ocorreu aos cristãos por volta de 400 a 800 D. C.

A nova Roma cristã estabelecida em Constantinopla estava cercada por inúmeros inimigos. Externamente ela foi enfraquecida onda após onda de invasores bárbaros. Pior, os muçulmanos varreram o Oriente Médio e o Norte da África, ocuparam a Espanha e penetraram na França. Durante algum tempo, deve ter parecido improvável que o Cristianismo pudesse sobreviver. 9 Como o povo de Israel tinha sido duramente pressionado pelos filisteus no período dos Juízes, o novo Israel sofreu terrivelmente com o desmembramento do Império Romano.

Tanto internamente quanto externamente a Igreja enfrentou sérios problemas. Logo depois que Constantino favoreceu o Cristianismo, era natural que algumas cidades imperiais chaves se tornassem os centros principais do poder eclesiástico.

Os bispos de Constantinopla, Alexandria, Antioquia, Jerusalém e Roma, chamados patriarcas, sentiram inveja uns dos outros e muitas vezes se envolviam em lutas constantes pela primazia. “Cada homem fez o que era certo aos seus próprios olhos” para citar o livro de Juízes (21:25). Esta trágica falta de unidade assumiu três formas destrutivas: disputas entre os cinco patriarcas, antagonismo entre os imperadores cristãos e clérigos proeminentes, e cismas causados pelas tentativas de reforçar a uniformidade teológica. Repetidamente a comunidade cristã foi dividida, como os arianos discutindo com os defensores do credo de Niceia, semi-Nestorianos brigando com semi-Monofisistas, e bispos de Roma tirando vantagem de toda oportunidade de enfraquecer os patriarcados rivais de Constantinopla e Alexandria.

A partir das condições caóticas na Idade dos Juízes de Israel, a monarquia hebraica nasceu. De uma maneira um tanto semelhante, quando a maior parte do mundo cristão estava controlada por muçulmanos ou bárbaros, Carlos Magno apareceu na Europa Ocidental como o campeão da ortodoxia e unidade política.

O Princípio Divino afirma que Carlos Magno desempenhou um papel fundamental no curso de restauração de Deus. Por que sua obra foi tão importante? Seu avô, Carlos Martel, parou os invasores muçulmanos da França e os forçou a recuarem para a Espanha. Em 771 D. C. Carlos Magno se tornou o único governante do reino Franco. No dia de natal de 800 ele foi coroado na basílica de São Pedro pelo Papa Leão III como o Sacro Imperador Romano. Durante um longo reinado, Carlos Magno regeu sobre uma vasta área cobrindo a França, Bélgica, Países Baixos, a maior parte da Alemanha Oriental, Áustria e Tchecoslováquia, Suíça e Itália nordeste e central, como também partes da Hungria e Iugoslávia. Portanto, Carlos Magno criou o ideal de uma Europa unida. 10

Seu reino também marca uma mudança importante na história cristã. Antes do seu reinado, o centro da vida e pensamento da igreja estava localizado no Império Romano oriental. A partir de então até 1914 a maioria dos eventos mais importantes na história cristã ocorreria na Europa Ocidental.

Carlos Magno assumiu conscientemente sobre si mesmo as responsabilidades de um monarca cristão e defensor da fé. Ele pensava sobre si mesmo como um segundo Rei Davi, e é desta forma que ele é visto pelo Princípio Divino. Para este objetivo, ele protegeu o papa, assumiu um interesse ativo em assuntos teológicos, apoiou os melhores clérigos de seu tempo e estimulou uma renascença cultural na Europa cristã.

Infelizmente, assim como a monarquia unida hebraica começou a desmoronar logo após a morte de Davi, as realizações de Carlos Magno não foram preservadas por seus sucessores. A despeito dos valentes esforços de Carlos Magno, o Sacro Império Romano não pôde fornecer um fundamento seguro para o ideal da Cidade de Deus de Agostinho.

Depois do reinado de Salomão, as dez tribos no norte se rebelaram contra Jerusalém e estabeleceram um reino rival. Esta divisão enfraqueceu gravemente os hebreus tanto religiosamente quanto politicamente. Comparável aos quatrocentos anos de conflito entre os reinos de Israel e Judá, a Europa cristã sofreu cerca de quatro séculos de turbulências políticas e brigas religiosas.

Quais eram as principais características do período a partir do ano 1000 até 1500? Primeiro, em 1054 o papa Romano excomungou o patriarca ecumênico em Constantinopla, causando uma separação entre a Ortodoxia Oriental e o Catolicismo que tem persistido até hoje. Em segundo lugar, houve repetidas lutas entre os poderosos papas e ambiciosos monarcas europeus. Terceiro, a igreja ocidental se tornou infectada com avareza, orgulho e mundanismo a despeito dos monges e místicos da Idade Média cuja piedade e devoção eram tão exemplares. Finalmente, um espírito nacionalista se espalhou por toda a Europa, o que ameaçou destruir a unidade que a Cristandade uma vez tinha fornecido.

Os profetas do Velho Testamento advertiam que se o povo de Israel não se reformasse, a nação estava condenada. Suas profecias foram cumpridas quando o reino do norte foi destruído pelos assírios e o reino do sul mais tarde foi levado para o exílio babilônico. Desastres comparáveis atravessaram a corrupta Igreja Católica e o povo cristão da Europa. Por um lado, o papado falhou miseravelmente em suas grandes cruzadas para recuperar a Terra Santa. A despeito de algumas derrotas iniciais, os muçulmanos foram capazes de solidificar sua posição sobre o Oriente Médio e ampliaram seu caminho para a Europa Oriental até que eles sitiaram a cidade de Viena. Quando Constantinopla caiu para os turcos Otomanos em 1453, todos os quatro antigos patriarcas da Ortodoxia Oriental se tornaram sujeitos a governos não cristãos.

Em segundo lugar, a estrutura eclesiástica do período medieval tinha se tornado obsoleta. O poderoso papado criado por Gregório VII (1073 até 1085) e Inocente III (1198 até 1216) precisava de grandes reparos. Sendo que a igreja tinha frequentemente e de forma tola se envolvido em política, no início do século XIV a corte papal se mudou de Roma para Avignon a fim de ser protegida pelo Rei Francês. Um século mais tarde os próprios Católicos se encontravam com três papas ao mesmo tempo: um papa em Roma, outro em Avignon e um terceiro eleito por cardeais reformistas em Pisa. Que tragédia de erros! Provavelmente ainda mais perigoso do que o avanço dos exércitos islâmicos e a escandalosa desunião entre os líderes da igreja, a nova era estava permeada com o espírito do secularismo.

Vivemos neste mundo e nosso principal objetivo é desfrutar de suas satisfações, dizem os homens. Embora a Renascença não fosse abertamente anticristã, ela assinalou a passagem do ideal medieval. A vida não era mais vista como uma peregrinação para o céu. Os homens da Renascença acreditavam que um Deus bom criou a terra para ser desfrutada ao máximo. A partir do ponto de vista da Igreja, o declínio da Idade Média deve ter sido tão traumático quanto o exílio babilônico tinha sido para os antigos hebreus.


8 Cf. o estudo de J. L. Crenshaw do estudioso do Velho Testamento Gerhard von Rad (1978), p. 158.

9 Cf. K. S. Latourette, Thousand Years of Uncertainty (1970), pp. 286-288.

10 Cf. H. Fichtenau, The Carolingian Empire (1964); Einhard, Life of Charlemagne (1960); A. Cabaniss, Charlemagne (1972).