A Necessidade de Liderança

De acordo com o Princípio Divino, aquele que irá conduzir o ministério do segundo advento será um homem como Jesus. Como ele afirma, “é absolutamente incompreensível ao intelecto de homens modernos que o Senhor viria sobre as nuvens.” 28 A maioria dos teólogos, muitos pensadores cristãos nas maiores denominações e dezenas de milhões de pessoas atualmente que estão alienadas do Cristianismo tradicional no ocidente acham incrível a noção Fundamentalista que Jesus ascendeu de forma corpórea para um céu físico onde viveu por 2.000 anos, e a partir do qual descerá flutuando até a terra nas nuvens. 29 Esse tipo de crença não tem sido pregada em muitas denominações há pelo menos um século. Poucos teólogos se preocupam em mencionar essa noção tão pitoresca, e menos ainda perderiam tempo tentando defendê-la. Consequentemente, os Católicos Romanos têm sido aconselhados pelos teólogos do Vaticano que a crença no 30 retorno físico de Jesus não é exigida dos fiéis.

Entretanto, a maioria dos cristãos que desiste da noção obsoleta que Jesus está voltando está inclinada a ignorar o valor duradouro da esperança do milênio. Liberais, por exemplo, substituem a esperança na vinda de Cristo com fé no espírito sempre presente. Cristo está sempre conosco, nos guiando e inspirando os homens de boa vontade. Ele opera através de seu novo Corpo, a Igreja. Cristo está especialmente presente quando a Eucaristia é celebrada, declaram religiosos sacramentalistas. No caso de Protestantes evangélicos, eles insistem que Cristo está para sempre batendo na porta do coração humano porque ele quer residir para sempre na alma nascida duas vezes do indivíduo.

Enquanto a teologia moderna removeu um grande obstáculo para a aceitação da visão Unificacionista, parece ter colocado dois em seu lugar. Primeiro, há a afirmação comum que o reino de Deus nunca será realizado na história. Reinhold Niebuhr, por exemplo, argumentou persuasivamente que o reino representa um objetivo transcendente além da realização terrena. 31 É certo que a teologia de Niebuhr foi construída sobre a desilusão com os inúmeros esquemas utópicos dos séculos XIX e XX. Contudo, ele justificou seu “cinismo domesticado” em termos de doutrina Luterana. Lutero ensinava que não há nenhuma maneira de uma sociedade ou um indivíduo ser aperfeiçoado sob as condições terrenas. Mesmo cristãos devem reconhecer que sua justificação é por pura fé. Eles permanecem simultaneamente justificados e pecadores. Somente através da graça, Deus ignora o pecado do homem e através de Sua misericórdia garante Seu perdão. Este ensinamento, acreditava Niebuhr, é uma avaliação muito realista da natureza humana e do destino.

Lutero estava certo? Devemos entender que sua doutrina cresceu a partir das condições da cristandade no século XVI. O que ele se rebelou contra era a doutrina oficial de que a Igreja medieval representava o reino terreno de Cristo e que o papado era a encarnação visível da vontade de Deus. Essa ideia era muito difícil de acreditar, por isso ele a combateu com o ensinamento de salvação somente pela fé.

Mas quais têm sido as consequências sociais desta tese Luterana? Tem havido ao menos três:

1) fé está limitada ao relacionamento pessoal de uma pessoa com Deus;

2) a sociedade não tem nenhum valor positivo, pois no máximo o que a família, o estado e a lei podem fazer é servir como uma represa que retém as águas furiosas da depravação universal;

3) portanto, os cristãos devem aceitar passivamente as instituições sociais existentes ao invés de estarem envolvidos nas tarefas sem esperança de melhorá-las. 32

Felizmente, os Calvinistas têm instintivamente se rebelado contra esse conservadorismo social. Em Genebra, Calvino estava determinado a fundar uma comunidade cristã. Seus discípulos posteriores, os Puritanos, estavam igualmente convencidos que o reino de Cristo poderia ser estabelecido na Grã-Bretanha ou na Nova Inglaterra. 33 No século XX, a mesma fé foi reafirmada, primeiro pelos cristãos do Evangelho Social antes da Primeira Guerra Mundial, e então pelos teólogos da esperança depois da Segunda Guerra Mundial. Assim, existe um fundamento já preparado até certa extensão para o anúncio do Princípio Divino de que o reino de Deus pode ser realizado aqui e agora.

Esta moderna “teologia do mundo,” para utilizar a expressão católica, no entanto, coloca um segundo obstáculo no caminho da aceitação do Princípio Divino. Por quê? Assumindo que a realização do reino pode ser cumprida em nosso tempo sem um messias, tudo que devemos fazer é aplicar os ensinamentos de Jesus à vida política e econômica de nosso tempo.

Teólogos liberalistas especialmente compreendem quão frutífero pode ser o diálogo dos cristãos com os marxistas, porque ambos estão comprometidos com a vinda da utopia. O que os cristãos chamam de reino, os marxistas descrevem como a sociedade sem classes que garantirá paz, justiça, dignidade e segurança para todos os homens. Esses teólogos veem com razão que tantos os cristãos como os marxistas são expoentes dedicados do Princípio da Esperança. Eles também avaliam corretamente as implicações deste mundo de uma fé apocalíptica. 34

Contudo, os comunistas muito mais do que os cristãos revolucionários reconhecem o significado crucial de uma figura central na inauguração de uma Nova Era. 35 Não podemos criar uma era messiânica sem a inspiração, direção e empurrão de um Messias. Nosso mundo contemporâneo já tem a habilidade tecnológica, recursos financeiros e mão-de-obra treinada para edificar uma nova sociedade baseada nos ideias de “coexistência, co-prosperidade e causa comum.” Tudo o que nos falta é um Deus inspirando e ungindo a pessoa que nos fornecerá liderança.


28 Divine Principle, p. 500.

29 O sacerdote Anglicano e teólogo Paul Badham demonstram quão incríveis as provas Patrísticas comuns para a ressurreição física de Jesus e o retorno se tornaram em nosso tempo. (Christian Beliefs about Life after Death, 1976, pp. 47-64).

30 Mencionado por Cullmann em Christ and Time (1964), p. 147 e G. C. Berkouwer, The Return of Christ (1972), p. 146.

31 R. Niebuhr, Nature and Destiny of Man (1964 ed.), vol. 11, pp. 86-87.

32 Isto não nega a mensagem inovadora e liberadora do jovem Lutero. Entretanto, depois de o reformador se aliar com o príncipe alemão, ele tendeu a se tornar apoiador do nacionalismo ultraconservador. Os comentários de Barth sobre o modo do Luteranismo do século XX ajudaram o Kaiser e Hitler não devem ser ignorados.

33 Cf. H.R. Niebuhr, The Kingdom of God in America (1937) and J. H. Nichols, Democracy and the Churches (1961).

34 A. Fierro, The Militant Gospel (1977).

35 Onde o Marxismo hoje estaria sem sua dependência da liderança de Lênin, Stalin e Mao?