Teologia da Centralização

Centrar ou centralizar? Essa parece ser, à primeira vista, uma questão referente apenas à retórica, ou então uma discussão meramente de semântica, sendo que os dois verbos – centrar e centralizar – existem, são corretos, e têm seus significados específicos na frase em que estiverem utilizados. Mas a partir da hermenêutica, essa pergunta passa a ter um sentido mais claro e objetivo, porque sua utilização normalmente revela intenção, propósito e objetivo. Quando analisamos o uso das palavras com a intenção de estudar textos religiosos ou filosóficos, inúmeras possibilidades subjetivas podem surgir, em conformidade com a intenção do autor ou do interlocutor.

Em uma primeira análise a partir do dicionário, esses dois verbos – centrar e centralizar – são sinônimos, no sentido mais geral, vendo de forma isolada e descontextualizada, ou seja, sem vínculo com uma ideia ou uma teologia específica. São inúmeras definições, e de forma resumida, ambos os verbos se referem a reunir ou dispor no ponto central, convergir ao centro.

A única observação que podemos fazer para distinguir os dois verbos, é um aspecto referente ao verbo “centralizar” que possui uma outra utilização específica, a qual pode ser vista através de seus sinônimos específicos: reunir, concentrar, monopolizar, comandar e controlar. Um exemplo desse uso do verbo centralizar é encontrado no livro “Exposição do Princípio Divino,” na página 374, onde se lê; “O propósito do capitalismo na Providência era promover a acumulação do capital e a centralização da atividade econômica…,” se referindo aqui, ao significado de concentração e controle.

Antes de seguir na análise da pergunta inicial – centrar ou centralizar? – é preciso dedicar um momento de reflexão sobre o significado do substantivo que dá origem aos verbos em questão, ou seja, o significado de “centro.” “Centro” possui inúmeros e diversos significados, passando pela geometria, pela filosofia, pela ciência em geral, pela política, pela religião, e por quase todas as áreas do conhecimento. Seus sinônimos “meio” ou “núcleo” nos dão uma ideia mais ampla e clara de seu significado. Mas sendo que há inúmeros sinônimos, todos eles relacionados com o propósito ou contexto de sua utilização, devemos também definir qual o propósito ou contexto que se pretende na utilização.

Neste sentido, cabe também uma análise prévia sobre o “princípio da centralidade,” o qual permeia e se apresenta como essencial em todas as áreas da existência tangível e intangível, causal e resultante, essencial e substancial. Centralidade é o atributo ou característica daquilo que é central ou deve ser o centro; o núcleo. Este princípio é intrínseco a todas as formas de existência, seja inanimada, vegetal, animal ou humana. A química, a física, a astronomia, a biologia, e especificamente as ciências sociais possuem o “princípio da centralidade” como sua essência, e o “centro” possui papel de destaque no funcionamento harmonioso e eficiente de toda existência.

A religião e a doutrina religiosa também possuem seu “princípio de centralidade e defendem como o Centro Primeiro e Principal, Deus, o Criador de todas as coisas e, por conseguinte, a verdadeira origem deste Princípio de Centralidade.

Na Teologia da Unificação, seja no conteúdo do livro “Exposição do Princípio Divino,” ou no livro “Novas Essências do Pensamento de Unificação,” o mesmo “princípio de centralidade é descrito e explanado de forma ampla e clara. Nas 79 vezes que a palavra “centro” é mencionada no livro “Exposição do Princípio Divino[1] em português, grande parte consta no primeiro capítulo com o título “Princípio de Criação,” e suas referências oscilam entre Deus e os seres humanos como o “centro,” como os exemplos a seguir:

“Um ser humano atinge a perfeição quando centraliza sua vida em sua mente; da mesma forma, a criação somente se torna completa quando Deus ocupa o seu centro.”

“Por esta razão está escrito na Bíblia que os seres humanos, que são o centro do universo, são criados à imagem de Deus.” [2]

Há também outros “centros” mencionados no livro “Exposição do Princípio Divino,” por exemplo, quando é explicado as estruturas da Ação Origem-Divisão-União e o Fundamento de Quatro Posições, ou mesmo em outros capítulos como a Queda do Homem, onde até Satanás assume o “centro” em função desta narrativa; mas creio que essa análise deva girar realmente em torno destas duas utilizações citadas sobre a palavra “centro.”

Cabe mencionar, ainda em termos de observação, que na primeira citação acima, a partir do livro “Exposição do Princípio Divino,” aparece o verbo “centralizar” na tradução do trecho em inglês que descrevo abaixo, mas que no meu entendimento, a tradução mais exata seria “centrar”:

“A human being attains perfection when he centers his life on his mind; likewise, the creation becomes complete only when God stands as its center.” [3]

De fato, no livro em inglês “Exposition of the Divine Principle”, a palavra “centralizado” (centralized) não aparece nenhuma vez em todo o seu conteúdo, e a palavra “centralização” (centralization) aparece uma única vez (como já mencionado anteriormente na versão em português) no livro “Exposition of the Divine Principle” na página 339, como referência à concentração e controle da atividade econômica.

Para tornar mais clara essa análise conceitual, a observação da palavra “centro” no livro “Novas Essências do Pensamento de Unificação[4] torna-se mais eficiente, porque, além de aparecer 146 vezes em seu conteúdo, sua utilização permite um entendimento mais prático e funcional. Por isso, incentivo o estudo deste livro para melhor entendimento destes termos.

Vale ressaltar também que, no livro “Novas Essências do Pensamento de Unificação,” e também em sua versão original em inglês, não existe nenhuma citação da palavra “centralizado,” e uma única citação da palavra “centralização” na página 36 da versão em português, “Novas Essências do Pensamento de Unificação,” com a intenção de utilizar o sentido de concentração, como segue abaixo:

“Entretanto, devido à queda de Adão, uma cultura do coração não foi realizada; ao invés, até hoje culturas baseadas em auto centralização, ou culturas nas quais o intelecto, emoção e vontade estão separados um do outro, foram estabelecidas.”

Deste modo, feito todas estas considerações e esclarecimentos com o propósito de definir e conceituar de acordo com a hermenêutica da Teologia da Unificação, e a fim de responder à pergunta origem dessa reflexão – centrar ou centralizar? – surge outro ponto que demanda análise para eliminar qualquer sombra de dúvida sobre a resposta adequada: “Centrar ou centralizar em quê?”

Em um reflexo quase instintivo de responder essa pergunta, seja para demonstrar conhecimento, ou para saciar a própria necessidade de afirmação de sua própria “centralização,” uma resposta pronta seria quase natural: “Centralizar em Deus, é claro!” Sim, essa é uma resposta clara, óbvia e correta. Tanto pela Teologia da Unificação, como também por todas as demais teologias cristãs ou não cristãs. Mas também é bastante genérica e vaga, porque em termos práticos, o que realmente significa dizer: “Centralizar em Deus, é claro!”? E qual seria a diferença ao dizer: “Centrar em Deus, é claro!”? É a mesma coisa? Se observado apenas pelo significado dos verbos, pode ser a mesma coisa, mas quando analisado pela hermenêutica, e principalmente, pela finalidade e contexto da utilização, então pode haver uma grande diferença, quando verificamos a verdadeira intenção por trás da defesa da “Teologia da Centralização.”

A partir do livro “Exposição do Princípio Divino,” e também no livro “Novas Essências do Pensamento de Unificação,” podemos observar que há várias citações onde até mesmo Deus, o Centro Absoluto, possui também Seu próprio “centro,” um âmago a partir do qual brota seu impulso de existir, agir e criar. Como assim? Deus também precisa “se centralizar”? A este “centro,” os ensinamentos do Reverendo Sun Myung Moon, não apenas nos livros até aqui mencionados, mas em todos os seus discursos, define como sendo o Coração de Amor. Ao redor deste “centro,” todos os seres criados, e até mesmo o Criador, devem se centrar, ou seja, ter como o “centro” de sua existência.

Para não utilizar tantos exemplos e tornar essa reflexão excessivamente erudita e cansativa, mas permitir uma conclusão definitiva, vamos utilizar um dos textos básicos entre os conteúdos eleitos pelo próprio Reverendo Sun Myung Moon como sendo os oito textos fundamentais dos seus ensinamentos, o “Juramento da Família.” Neste texto composto de oito itens que devem ser recitados e praticados para que uma família possa ser verdadeira e ideal, sendo assim uma declaração de propósito e objetivo, há premissas que se repetem em todos os itens do juramento. Mas vamos concentrar nossa atenção em apenas uma dessas quatro premissas: “centralizada no Amor Verdadeiro.” Em inglês, lê-se: “by centering on true love.” E em coreano romanizado, lê-se: “cham-sa-rang-eul-jung-shim-ha-go.”

Primeiro ponto a analisar, é que entre as premissas do “Juramento da Família” está a demanda de que devemos “centralizar no Amor Verdadeiro.” Somente a título de observação para posterior comentários, no “Juramento da Família” em inglês a palavra “centering,” e em coreano a palavra “jung-shim” seriam melhores traduzidas por “centrando ou centrado.”

Segundo ponto interessante a observar, é que em nenhuma parte do “Juramento da Família,” seja em português, inglês ou coreano, existe qualquer menção sobre a demanda de “centralizar em Deus,” “centrar em Deus,” “concentrar em Deus,” ou qualquer outra ação “em torno de Deus.” Já tinha observado isso? Já tinha pensado sobre isso? Qual é sua conclusão sobre isso?

A resposta para esta, e várias outras perguntas relacionadas a toda essa análise está clara, mas talvez não tão óbvia. E não é óbvia principalmente para aqueles que se prendem apenas às letras e esquecem da prática, aqueles que utilizam as palavras com intenção, propósito ou objetivo egoísta, manipulador, controlador. O “Juramento da Família,” como qualquer um dos textos e conteúdos da Teologia da Unificação ou dos ensinamentos do Reverendo Sun Myung Moon não devem ser apenas letras em livros e em discursos teóricos e gráficos ou imagens bem elaboradas, mas na vivência prática.

De forma resumida, Deus passa a ser o “centro” do ser humano, quando o ser humano se “centra” no mesmo “centro” do próprio Deus, o qual é o Amor Verdadeiro, e assim, pode “centralizar” (concentrar) suas ações e atitudes na prática do Amor Verdadeiro. Desta forma, pode-se dizer que o “centro” é Deus, porque se compartilha o mesmo “centro” de Deus, o qual é o Amor Verdadeiro. Daí surge a relação, a interação, o relacionamento Pai-Filho, que é a maior verdade do universo. “Centrar” significa compartilhar o mesmo “centro” de Deus, e assim, ter um relacionamento com Ele. A Queda foi perder o “centro” (Amor Verdadeiro), o que ocasionou perder a base da relação com Deus. Primeiro, é preciso “centrar” para em seguida “centralizar.” É uma relação de causa e efeito, sujeito e objeto. E a utilização equivocada, invertida ou distorcida, pode acarretar interpretações equivocadas, invertidas ou distorcidas.

Esse é o ideal original de criação, que deve ser recuperado nos Últimos Dias, quando efetivamente o ser humano recupera sua posição original, sua relação com Deus, sua capacidade de “centrar” no Amor Verdadeiro e concentrar(centralizar) suas ações e relacionamentos ao redor do Amor Verdadeiro.

Esta relação, tanto no estado original quanto no estado restaurado, deve ser direta, íntima e pessoal. Não deveria haver intermediários no projeto original. Não há condições no projeto original. Não há escalas e desvios no projeto original. A necessidade de intermediários decorre da necessidade de “religar” essa relação rompida com a Queda. E mesmo com essa necessidade, ainda sim é preciso entender – é preciso compreender com profundidade – que essa intermediação é apenas temporária. A perpetuação e continuidade indefinida dessa intermediação apenas demonstra sua ineficácia e ineficiência. A própria religião, em seu propósito e finalidade, deveria ser temporária, mas sua perpetuação demonstra uma perda de propósito e finalidade. Após concluído o propósito de salvação, após concluída a finalidade da restauração, a relação com o “centro” definitivo deverá ser direta, íntima e pessoal.

Atualmente, como foi no passado das religiões, ainda existe a defesa de uma “Teologia da centralização” que, na verdade, é simplesmente a manifestação equivocada e distorcida do significado e propósito dessa ação, como foi detalhado anteriormente na discussão sobre “centrar ou centralizar.” Como em todas as religiões mundiais, atualmente observa-se a defesa dessa “Teologia da centralização” como meio de “centralização em Deus.” Mas todos os elementos fundamentais que deveriam ser enfatizados, por mero desconhecimento, ou por outros motivos, são omitidos e não esclarecidos.

Então, na prática, a doutrina exige “centralizar em um intermediário sacerdotal,” que seria o “legítimo e absoluto” representante de Deus. A defesa no meio “unificacionista” desta mesma “Teologia da centralização está baseada em outra “teologia” também ensinada e praticada equivocamente, a qual já foi estudada e chamada de “Teologia da Figura Central.[5] Como já mencionado na análise da “Teologia da Figura Central,” a conceituação e utilização equivocada de conceitos acarretam crenças e práticas também equivocadas.

Deus, através de sua Providência de Restauração, e através dos princípios que regem essa providência, não pretende ostentar eterna e indefinidamente essa relação distante, por meio de intermediários. Ele anseia urgentemente que a relação direta, íntima e pessoal de Pai e Filho seja estabelecida. E certamente a manutenção da necessidade da “centralização em intermediários” deve também cumprir seu propósito, ou então, será um fracasso e descaminho.

A defesa da “Teologia da centralização por si só, com o único propósito da manutenção de “autoridade” e “poder” como mera “instituição religiosa” e suas “posições hierárquicas” conduz ao mesmo problema narrado e esclarecido no Capítulo Dois do livro “Exposição do Princípio Divino.” O Arcanjo não foi criado para ser o “centro” da raça humana, mas apenas atuar temporariamente como “intermediário” para ajudar os seres humanos a “centrarem” no Amor Verdadeiro, e se relacionarem com Deus, como Pai e Filhos. O “centro” verdadeiro e absoluto existe para ser contínuo e duradouro, enquanto a posição “intermediária” é sempre temporária e provisória; e não central.

Na história humana, dentro das esferas das religiões, as “posições hierárquicas” dentro das diferentes religiões sempre foram confundidas, intencionalmente ou não, com “posições divinas” onde todos os seguidores deviam “centralizar” sua fé e prática. E como a utilização da palavra “centralização” nestes casos ostenta apenas o significado de concentração, domínio ou controle, é óbvio também que seus limites se restringem à autoridade e poder de pessoas sobre pessoas. E outro ponto a observar, sendo que a chamada “posição divina” se baseia na “posição hierárquica da instituição,” observamos que a fé e a prática dos preceitos da instituição religiosa pelos próprios ungidos como “intermediários divinos” na maioria das vezes não se equipara com as boas práticas dos “necessitados de intermediação.”

Atualmente a “Teologia da centralizaçãonega e rejeita veementemente a ação de Deus através de qualquer outro além dos “intermediários oficiais” e, assim, nega Deus, nega o Amor Verdadeiro como “centro” do próprio Deus e do ser humano, nega a ação de Deus na história atual e, principalmente, nega que o Cristo veio para “centrar” toda a humanidade diretamente com o Coração e Amor de Deus. A “Teologia da centralizaçãoconcede aos “intermediários divinos” inclusive a autoridade de julgar se a “centralização” de seus subordinados realmente está adequadamente “centralizada” ou não. E o padrão de medida para esse julgamento, bem, esse é outro assunto, é outra teologia que precisa ser analisada e estudada, mas este é assunto para outra discussão.

Para finalizar, a questão inicial – centrar ou centralizar? – deve ser respondida pelo próprio significado pretendido pelo Verdadeiro e Legítimo Representante de Deus, o Cristo, Messias e nosso Salvador:

“Respeitados líderes mundiais, qual vocês acham que é o propósito definitivo de Deus para criar os seres humanos? Colocado de forma simples, é para experimentar alegria através do relacionamento com famílias ideais preenchidas com amor verdadeiro. Como se parece uma família ideal? Primeiramente, cada pessoa na família é um soberano do amor verdadeiro. Quando Deus primeiramente criou os seres humanos, Ele fez Adão representando todos os homens, e Eva representando todas as mulheres, com a intenção de que eles se tornassem soberanos do amor verdadeiro. A forma mais rápida para eles cultivarem um caráter de amor verdadeiro era assegurar um relacionamento pai e filho com Deus, onde eles poderiam viver atendendo a Deus como seu Pai. Eles deveriam ter seguido o caminho de viver como uma única família com Deus. Eu convido vocês a entrarem em um estado transcendente de oração e perguntarem para Deus: “Qual é o centro do universo?” A resposta que vocês ouvirão indubitavelmente será: “o relacionamento pai e filho.” Nada é mais importante ou mais precioso do que o relacionamento entre pai e filho. Isto é porque ele define o relacionamento fundamental entre o Deus Criador e os seres humanos. Então, o que define o relacionamento pai e filho? Três coisas: amor, vida e linhagem.” [6] (Moon, Sun Myung)

[1] Referência feita ao livro virtual disponível no site www.unificacionista.com.

[2] Citações feitas a partir da página 21 do livro oficial “Exposição do Princípio Divino” impresso em português pela AFUPM.

[3] “Exposition of the Divine Principle,” page 19, revised edition 2006, printed by HSA-UWC.

[4] Livro “Novas Essências do Pensamento de Unificação” disponível no www.unificacionista.com.

[5] https://www.youtube.com/watch?v=PZD7rjltXSE e http://www.unificacionista.com/index.php?option=com_content&view=article&id=279:a-teologia-da-figura-central&catid=76:meus-artigos&Itemid=250.

[6] “Família Ideal de Deus e o Reino do Mundo Ideal Pacífico,” Mensagem da Paz nº 1, página 2.          Fonte: www.unificacionista.com.

Marcos Antonio Alonso é paulista, casado, 55 anos, formado em Administração de Empresas pela Fundação de Estudos Sociais do Paraná, MBA em Marketing for Business Advancement pela Universidade Federal do Paraná, MBA em Negócios Financeiros pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, possui Metodologia do Ensino Superior pela Universidade Federal do Paraná e é formado em Teologia pela Faculdade de Teologia da Unificação.